A bem da Nação

Conversa fiada – 10ª parte

Resumo da 9ª parte: A apreciação parcial das GOP’s para 2005 é positiva apesar da nota negativa às da Justiça e de na Defesa e nos Negócios Estrangeiros se fazer a política que a UE nos permite em vez da que deveríamos fazer; as oposições políticas não discutem os assuntos pois apenas se interessam pelo mediatismo; na Administração Interna perspectiva-se uma política razoável mas mantendo uma estrutura institucional que não faz sentido; o IEFP devia dedicar-se à reinserção social dos presos; a instrução da condução automóvel é anacrónica.


Jornalista – Cá estamos novamente, sãos e salvos, sobrevivos a um passeio ao longo da Marginal em que não fomos atropelados.
Economista – Nós não fomos atropelados mas o Governo foi cilindrado.
Jornalista – Sim, parece que o Presidente da República decidiu iniciar o processo de dissolução da Assembleia da República.
Economista – Por muito importante que esse facto possa ser – e é, sem dúvida – não passa, contudo, de um episódio normal em democracia. As consequências económicas é que podem ser mais ou menos gravosas conforme os cenários que se perspectivem.
Jornalista – E o que é que se perspectiva?
Economista – Não disponho de informação privilegiada, como imagina, pois tudo depende dos resultados das votações e esses dependem de muita manipulação da opinião pública, como é uso e costume em campanhas eleitorais em que se fala sobretudo de minudências e se omitem por norma as grandes questões nacionais.
Jornalista – E fora das campanhas, fala-se de coisas importantes?
Economista – Raramente. Repare bem que nestes dias que temos atravessado durante a nossa conversa fiada, só se fala de falsas celebridades e de escândalos sexuais; poucas referências ao Orçamento para 2005, nenhumas às GOP’s e uma pergunta escandalosa a referendar a Constituição europeia.
Jornalista – Parece que toda a gente está contra o Orçamento, desde a esquerda à direita.
Economista – Sim, é o bombo da festa. Mas também lhe digo que não deve ser fácil ser-se Prior desta freguesia com uns a acharem que se gasta de mais e outros a quererem que se gaste ainda mais.
Jornalista – Será possível conciliar o inconciliável?
Economista – Será possível chegar a um acordo de concertação social quando as partes puxam a corda até a partirem? Nunca há só um teimoso: tem que haver, pelo menos, dois e neste caso há muitos mais com cada um na sua sem querer ceder em nada. Os parceiros sociais estão a prestar muito mau serviço ao país pois cada um só está interessado em fazer espectáculo para a respectiva plateia e parece não pretenderem chegar a acordos parcelares de modo a irem abrindo perspectivas. E repare que não é necessário ir fazendo acordos parcelares em que todos os parceiros alinhem: bastaria que se fosse fazendo acordos parcelares entre alguns parceiros, dois a dois, três a três, sei lá, em geometrias variáveis . . . um a dois, etc.
Jornalista – E isso conduziria a algum lado?
Economista – E acha que a situação actual conduz a algum lado?
Jornalista – Estamos num beco sem saída?
Economista – Eu acho que o ideal seria que houvesse um acordo de concertação social como plataforma da sociedade civil para a construção dos cenários da política de rendimentos e de todas as prospectivas daí decorrentes tais como as dos agregados macroeconómicos, as GOP’s e os Orçamentos do Estado. Mas eu sei que os modelos macroeconómicos que parece servirem de base à elaboração das prospectivas nos têm conduzido a resultados perfeitamente aberrantes quando as comparamos com os resultados finais, que as GOP’s não aparecem devidamente quantificadas para que as possamos integrar numa análise numérica, nomeadamente financeira e que ninguém conhece a relação causa-efeito entre as GOP’s e o Orçamento do Estado. Ou seja, o acordo de concertação social é perfeitamente incapaz de servir de base a um edifício que afinal não existe e, portanto, eu quase diria que tudo continua a ser feito à matroca com ou sem o tal acordo que é tão difícil de alcançar. Se fosse fácil e não servisse para nada, tudo bem; sendo difícil e continuando a não servir para nada, então o melhor é esquecê-lo. Mas é pena ter que concluir desta forma.
Jornalista – Mas o que sucede se não houver um acordo que defina uma política de rendimentos?
Economista – Haverá acordos sectoriais, haverá acordos de empresa e, sobretudo, haverá o Estado a dar o mote através dos aumentos à Função Pública.
Jornalista – Mas isso acaba por condicionar tudo à contenção do défice das contas públicas.
Economista – Mas é o melhor que se arranja se as outras partes não se quiserem entender.
Jornalista – Então, para que é que temos estado aqui a perder tempo com as GOP’s?
Economista – Para o mesmo com que os outros têm estado a perder tempo para não chegarem a acordo no âmbito da concertação social, para o mesmo com que outros ainda têm estado a perder tempo com a apreciação do Orçamento. Nós, ao menos, estivemos a ler uma carta de intenções que nos dava uma ideia sobre o que o Governo dizia que faria no ano seguinte. E estávamos a fazer os nossos juízos de valor sobre essas ideias. Até que o PSD decidiu fazer haraquiri.
Jornalista – O PSD e o CDS.
Economista – O CDS? Não. Eu acho que o CDS foi o elemento estável neste Governo. O Primeiro Ministro é que não está a ser aceite pelo seu próprio Partido e, portanto, tudo passa por uma questão interna do PSD e só dele.
Jornalista – Então e agora?
Economista – Agora, o Presidente da República quer que o Orçamento para 2005 seja votado. Admito que a actual maioria parlamentar o aprove mas não sei o que vai suceder às autorizações legislativas que nele ficam implícitas. Quem vai governar depois de eleições? O PS? Com maioria absoluta, com maioria simples ou em coligação? E nesta última hipótese: coligar-se-á com o PCP ou com o CDS? Mas também pode suceder que o PSD consiga encontrar a tempo um novo líder credível que convença o eleitorado a manter a cor política do Governo.
Jornalista – Acha isso plausível?
Economista – Não sei que cartas alguém tenha na manga mas temo que não estejamos em época de “salvadores da Pátria” disponíveis para o horrível sacrifício da governação, sempre a serem alvo das maiores afrontas e ignomínias. Temo que os mais capazes não estejam disponíveis, apesar de andarem para aí a dizer coisas no sentido de que se deve fazer assim e assado mas avisando logo à partida que não contem com eles. Não deixa de ser um pouco estranho, essa de fazerem de ponto como no teatro. Sempre nos saíram uns grandes pontos.
Jornalista – Mas não acredita que haja alguém que poderia ser considerado indispensável para presidir ao novo Governo?
Economista – O Professor Adriano Moreira costuma dizer que “de pessoas indispensáveis estão os cemitérios cheios” mas parece-me necessário encontrar alguém que, pelo menos, tenha “postura de Estado”. Já não peço muito mais . . .
Jornalista – Não quer avançar nomes que lhe agradassem?
Economista – Não falo de pessoas; interesso-me pelas políticas.
Jornalista – Então, que políticas acha que deviam ser seguidas?
Economista – É disso que temos tratado desde os “Diálogos platónicos” e que nos preparávamos para levar por diante até ao final das GOP’s para 2005 mas acho que nos cortaram o pio. Ficámo-nos pela primeira GOP e ficam as outras três por analisar porque me parece inútil continuar em algo que não poderá passar de um simples exercício académico.
Jornalista – Então, do que vamos falar daqui para a frente?
Economista – Logo se verá mas, para já, vou comemorar o 1º de Dezembro e a Restauração da soberania de Portugal.
Jornalista – Vai aos Restauradores?
Economista – Vou todos os anos e olhe que cada vez mais é necessário afirmar que Portugal é um Estado soberano pois há muitos que o querem diluir como uma região europeia. Esses, que tanto falam do iberismo mais não fazem do que copiar o Cristóvão de Moura e o Miguel de Vasconcelos, pessoas que passaram à História como autênticos traidores.
Jornalista – E no que pensa quando vai a essas comemorações?
Economista – No definhamento que desejo aos traidores.
Jornalista – Sabe a letra do Hino Nacional?
Economista – Claro que sei mas canto-o com dificuldade porque me emociono e embarga-se-me a voz.
Jornalista – Tem esperança de que Olivença volte a ser portuguesa?
Economista – Olivença é portuguesa mas está a ser administrada por Espanha. Creio que esse litígio fronteiriço vai ter que ser dirimido nalgum fórum internacional apesar de o Governo português dar sucessivas provas de ter medo de tratar do assunto mas há outras formas de tratar do caso.
Jornalista – Militarmente?
Economista – Seria ridículo.
Jornalista – Quer explicar?
Economista – Acho que podemos abordar essa questão numa conversa futura.
Jornalista – Fica prometido?
Economista – Fica prometido. Até à próxima; tenho que chegar a horas aos Restauradores antes que comecem as cerimónias.

Lisboa, 1 de Dezembro de 2004

Henrique Salles da Fonseca

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