A bem da Nação

CONTOS REFRACTÁRIOS

 


 


III


DINOSSAUROS NA FABULÂNDIA


 



 


Rei Leão, sentado numa grossa raiz de um frondoso Imbondeiro, gozando da augusta sombra da magestosa árvore, diliciava-se na navegação cibernáutica do seu Real iPad. El-Rei era um competente e avisado cibernauta.


 


Observava, no momento, a imagem de vários cardumes de várias espécies de pequenos peixes que nadavam numa certa direcção. Imagem essa colocada no Jornal on line "Accidentalia negotii", que incentivava os seus leitores a legendar as respectivas imagens e ganhava-se um prémio pela legenda mais votada.


 


Sua Magestade, cofiando a barba bem penteada, acabou por escrever a seguinte legenda:. "Arraia miúda a caminho do comício. Os tubarões já estão no palanque para botar discurso…". Esta frase não foi escrita por o Rei Leão ser um democrata convicto. Como as palavras não têm som, não se ouviu a raiva com que foram virtualmente tecladas.


 


"Alteza Real!" – Chamou o Aligator, aio de serviço.


 


"Estão ali os seus parceiros de poker!" – Informou.


 


"Está bem, figura peçonhenta! Diz-lhes que se vão instalando que eu já vou!" - Exclamou o Rei.


 


A magestática figura era arrogante com os servidores rastejantes que desprezava e pisoteava sempre que lhe dava na Real Gana.


 


A Fabulândia era uma Monarquia Absoluta. "


 


O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus" e Sua Alteza era o exemplo prático desta máxima do barão Lord Acton.


 


E se Sua Alteza era mau…


 


Certo dia chamou um dos seus Tigres - numas províncias da Fabulândia, eram conhecidos oficialmente por Vizires, noutras por Alcaides, na verdade esbirros ao serviço da causa do poder absoluto, - e mandou dar-lhe cinquenta conscenciosas vergastadas porque ousara dirigir-lhe um ofício que iniciava, atrevidamente, por "penso". Pensava, mas, não existia!


 


O desgraçado ficou mais morto do que vivo e garantem testemunhas oculares autorizadas que durante uns meses não pôde sentar-se…


Desde aí, Rei Leão deixara de dar importância aos Alcaides e aos Vizires.


 


Quando se apresentou perante Sua Alteza Real, o infeliz Flagelado ouviu El-Rei, que, olhando-o com desprezo, lhe disse rispidamente: "


Não estás autorizado a pensar em coisa alguma, eu penso tudo e por todos".


 


"L’État c’est moi!"


 


Mas, isto já se passara há milénios!


 


Entretanto, os jogadores de poker já estavam instalados na mesa quando a Magestade chegou. Tratava-se de um Tigre da Malásia, de uma Hiena e de uma Pantera. O Rei fazia cumprir a Lei da paridade de género, para se pôr ao lado de Terras mais desenvolvidas.


 


Só nalguns casos. Nos restantes Serviços era apenas para inglês ver. Como soi dizer-se! Aparências necessariamente mal disfarçadas!


 


A instâncias da sua Leoa, a Magnificente Rainha, que lhe dera cinco princesas, - lamentava-se amargamente de não ter tido um varão – era dominado pelas mulheres e resignava-se a dar cumprimento à tal paridade, mas, era ele que determinava e mandava publicar.


 


Sempre!


 


Quem pagava era a desgraçada da criadagem. Não tinham direitos. Só tinham deveres e amochavam.


 


Acabada a jogatana, chamou o aio Aligator e ordenou-lhe que os Elefantes chamássem a reunir, ao toque das suas trombas, os do Conselho Régio, Órgão que, como diz o nome, era destinado a dar-lhe conselhos. Mas, isto era só fachada, para manter sossegados os súbditos mais recalcitrantes ou não fora ele um Absolutista.


 


As trombas ecoaram por toda a Fabulândia - alguns mais refilões chamavam-lhe ironicamente, Selva Terceiro Mundista, - e os Conselheiros Régios começaram a chegar nos seus faustosos meios de transporte, alguns particulares, outros oficiais.


 


Nunca quis combater este sumptuoso despesismo!


 


O Conselho também era rigorosamente paritário, ou levava umas dentadas bem dolorosas das suas fêmeas, e era constituído por várias espécies não predadoras, entre patas e asas, para dar uma boa imagem da sua democraticidade enviesada. Aberta a sessão, Sua Alteza informou:


 


"Hoje,a Ordem de Trabalhos é sobre as novas nomeações para Vizires e Alcaides, em todas as províncias do meu país!"


 


Fez-se silêncio total.


 


"Alguma intervenção?" – Inquiriu Sua Magestade com ar enfastiado e de poucos amigos.


 


"Eu tenho, Vossa Graça" – Afirmou o elegante Antílope, levantando, timidamente, a pata e continuando: "Vossa Graça deixou os Tigres andar à vontade por muito tempo e agora não vai ser fácil mudar alguns!"


 


"Ora essa! E porquê? – Inquiriu Sua Alteza, já irritado.


 


"Bem! É que Vossa Gracíssima Graça deixou os Tigres lá ficarem por muitos anos e alguns deles, instalados nas benesses e nos prestígios, não querem dar lugar a outros e metamorfosearam-se em Dinossauros" – Explicou o arrojado Conselheiro.


 


"Dinossauros?" – Berrou Sua Alteza Real.


 


"Sim, Magestade!". "Aquela espécie fóssil de réptil dos períodos secundário e terciário, já lá vão cerca de cento e vinte milhões de anos, cujas dimensões atingiram 11 metros de altura e 30 metros de comprimento!". "Com este tamanho, tecnicamente, não é aconselhável mudá-los" - Explicou o Antilope Conselheiro, com ar de quem tem a firme certeza do que afirmava.


 


"Está acabada a sessão!" – Sentenciou, agastado, El-Rei.


 


Quando ficou só, cabisbaixo, foi agarrar-se ao seu Real iPad. Então não é que a sua legenda, colocada na imagem do Jornal


on line "Accidentalia negotii", que incentivava os seus leitores a etiquetar as respectivas imagens, fora premiada por ter sido a mais votada… e ganhara?


 


Moral da História: Nem os mais aparentemente democráticos aboslutismos conseguem vencer a força, o peso e as dimensões dos Dinossauros instalados.


 


 Luís Santiago


 


Sintra, Agosto de 2013


 


NOTA DO AUTOR: Algumas partes deste texto podem assemelhar-se à realidade. Trata-se, porém, de pura coincidência.

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