O ALFERES KIJE, de Yu. N. Tynianov,
O conto histórico "O alferes Kije" apareceu em 1928. O seu autor Yu. N. Tynianov publicou uma série de produções de tema histórico. A acção do conto "O alferes Kije" decorre no tempo do imperador Paulo I, filho e herdeiro de Catarina II, a Grande. Paulo I pouco tempo foi imperador: ele era um homem claramente desequilibrado. Em acessos de fúria, não raramente mandava para a Sibéria, como castigo, homens totalmente inocentes. No seu conto, Tynianov faz uma sátira de toda a sociedade russa do século XVIII.
Em 1934, apareceu um filme baseado neste conto, com música de Prokofief.
Na chancelaria do regimento de Preobrajenskii o escrivão militar foi mandado para a Sibéria, por castigo.
O novo escrivão, jovem, ainda um rapaz, sentava-se à secretária e escrevia. A mão tremia-lhe, porque estava atrasado.
Era necessário acabar com a cópia da ordem do dia exactamente às seis horas para que o ajudante de dia a levasse ao paço, e aí o ajudante de sua alteza, juntando a ordem do dia a outros documentos, se apresentasse ao imperador às nove. Um atraso era considerado um crime. O escrivão militar levantara-se mais cedo do que o costume, mas estragara a ordem do dia, e agora fazia outra lista. Na primeira lista ele fizera dois enganos: o tenente Siniukhaev ele dera como morto, de modo que Siniukhaev seguia imediatamente após o major Sokolov; e permitiu um escrito absurdo: em vez de "Alferes Stiven, Rybin e Azantchaev destinam-se" (Padparutchiki je Stiven...), escreveu "Padparutchik Kije, ..." Quando ele escrevia "Padparutychiki, entrou um oficial e ele pôs-se em sentido diante dele, parou no "k", e depois, tendo-se sentado novamente à ordem do dia, enganou-se e escreveu . "Padparutchik Kije".
[Explicação: Je, em russo, "же", é uma partícula que se pode traduzir por "mas", "no entanto" :"Fulano de tal morreu mas, no entanto, os alferes.... estão destinados..."]
Ele sabia que se não conseguisse a acabar a ordem do dia até às seis horas, o ajudante gritaria "Levar" e levavam-na. Por isso a mão dele não andava e ele escrevia cada vez mais devagar e de repente saltou, grande e lindo como uma fonte, um borrão na ordem do dia. Faltavam apenas dez minutos.
* * *
O escrivão não conseguiu copiar de novo a ordem do dia; o ajudante apresentou ao imperador para assinatura a lista errada.
A ordem do dia para a guarda ao regimento Preobrajenskii, assinada pelo imperador, foi por ele irritadamente corrigida. As palavras: "Padparutchik Kije, Stiven, Rybin e Azantchaev naznatchaiutsia" (o alfereres Kije, Stiven, Rybin e Azantchaev destinam-se), o imperador corrigiu: depois do primeiro "k" pôs um enormíssimo "ier" ( "Ъ" também chamado 'sinal duro', letra que foi extinta depois de 1917, porque não tinha qualquer valor fonético, mas era obrigatória em caligrafia depois da última consoante da palavra), e algumas das letras seguintes sublinhou e por cima escreveu: "O alferes Kije para a guarda".
A ordem do dia foi transmitida. Quando o comandante a recebeu durante muito tempo quis recordar-se, quem era esse alferes com tão estranho nome de família "Kije". Procurou na lista de todos os oficiais do regimento Preobrajenskii, mas oficial com tal nome de família não estava registado. Também não existia nas listas dos oficiais inferiores. Era incompreensível tal caso. De todo o mundo só o escrivão compreendia isto, mas ninguém lhe perguntava nem ele a ninguém dizia. Contudo a ordem do imperador tinha de ser cumprida. Porém, não podia ser cumprida, porque em parte alguma do regimento existia um alferes Kije.
O comandante do regimento galopou até ao ajudante de sua alteza.
O ajudante disse vagarosamente:
"Não participar ao imperador. Considerar o alferes Kije entre os vivos. Destinar para a guarda."
Não olhando para a moleza do comandante, ele entregou-o ao arbítrio da sorte, aprumou-se e desandou.
E assim começou a vida do alferes Kije.
Acusaram o alferes Kije de gritar GUARDA debaixo das janelas do imperador. Paulo I mandou-o para a Sibéria.
Quando o tenente voltou da Sibéria, sobre ele já se sabia muita coisa. Ele era o tal tenente, que fora castigado e mandado para a Sibéria, mas depois perdoado e promovido. Tais eram os bem definidos traços da sua vida.
O comandante já não sentia constrangimento com ele e designava-o ora para a guarda, ora para o serviço de dia. Quando o regimento saía para manobras, o tenente saía também com ele. Era um oficial impecável, porque nada se sabia de mal a seu respeito...
Folheando ao acaso as listas regimentais, Paulo Petrovitch deparou uma vez com o nome do tenente Kije e nomeou-o seu capitão e de outra vez coronel. Depois o imperador esqueceu-se dele.
A vida do coronel Kije decorria sem incidentes, que se notassem, e todos com isto se conformavam
A sua casa era o seu gabinete; a caserna, o seu quarto e por vezes lá chegavam informações e ordens e muitos se admiravam com a ausência do coronel.
* * *
Uma vez o general Kije foi chamado ao imperador. Nesse mesmo dia, reportaram ao imperador, que o general estava perigosamente doente.
Ele soltou um grito de aborrecimento e disse com voz rouca:
- Levar para o hospital, curar. E se, senhor, não curam...
O lacaio de quarto foi ao hospital duas vezes por dia informar-se da saúde.
Num grande pavilhão de janelas hermeticamente fechadas, moviam-se os criados, tremendo como doentes.
Para a tarde do terceiro dia, o general Kije faleceu.
Paulo Petrovitch já não se irritou. Olhou para todos com ar sombrio e ensimesmou-se.
* * *
O funeral do general Kije não foi esquecido em S. Petersburgo, e alguns memorialistas registaram os seus pormenores.
O regimento foi com as bandeiras esvoaçando. Trinta carros da corte, vazios ou cheios, cambaleavam atrás. Sobre almofadas levavam as ordens honoríficas.
Atrás dum caixão preto seguia a esposa, levando pela mão uma criança. E chorava.
Quando a procissão passou em frente do palácio de Paulo Petrovitch, o csar vagarosamente avançou para a varanda para vê-la e tirou o chapéu.
- A mim morrem-me os melhores homens - disse ele.
Tynianov
Joaquim Reis