A "Carta de Pero Vaz de Caminha" foi publicada, é mais difundida. Não conhecia o "Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama", por Álvaro Velho. E gostei de ler o que Camões também leu e tão bem adaptou. Por isso agradeço o texto e concordo com a referência à facilidade de adaptação dos portugueses aos costumes dos outros povos, e ao seu espírito de cortesia.
Canto V d'Os Lusíadas:
27
"Achamos ter de todo já passado
Do Semicapro peixe a grande meta,
Estando entre ele e o círculo gelado
Austral, parte do mundo mais secreta.
Eis, de meus companheiros rodeado,
Vejo um estranho vir de pele preta,
Que tomaram por força, enquanto apanha
De mel os doces favos na montanha.
28
"Torvado vem na vista, como aquele
Que não se vira nunca em tal extremo;
Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
Selvagem mais que o bruto Polifemo.
Começo-lhe a mostrar da rica pelo
De Colcos o gentil metal supremo,
A prata fina, a quente especiaria:
A nada disto o bruto se movia.
29
"Mando mostrar-lhe peças mais somenos:
Contas de cristalino transparente,
Alguns soantes cascavéis pequenos,
Um barrete vermelho, cor contente.
Vi logo, por sinais e por acenos,
Que com isto se alegra grandemente.
Mando-o soltar com tudo, e assim caminha
Para a povoação que perto tinha.
30
"Mas logo ao outro dia, seus parceiros,
Todos nus, e da cor da escura treva,
Descendo pelos ásperos outeiros,
As peças vêm buscar que estoutro leva:
Domésticos já tanto e companheiros
Se nos mostram, que fazem que se atreva
Fernão Veloso a ir ver da terra o trato
E partir-se com eles pelo mato.
31
"É Veloso no braço confiado,
E de arrogante crê que vai seguro;
Mas, sendo um grande espaço já passado,
Em que algum bom sinal saber procuro,
Estando, a vista alçada, co'o cuidado
No aventureiro, eis pelo monto duro
Aparece, e, segundo ao mar caminha,
Mais apressado do que fora, vinha.
32
"O batel de Coelho foi depressa
Pelo tomar; mas, antes que chegasse,
Um Etíope ousado se arremessa
A ele, por que não se lhe escapasse;
Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa
Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;
Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,
Se mostra um bando negro descoberto.
33
"Da espessa nuvem setas e pedradas
Chovem sobre nós outros sem medida;
E não foram ao vento em vão deitadas,
Que esta perna trouxe eu dali ferida;
Mas nós, como pessoas magoadas,
A resposta lhe demos tão tecida,
Que, em mais que nos barretes, se suspeita
Que a cor vermelha levam desta feita.
34
"E sendo já, Veloso em salvamento,
Logo nos recolhemos para a armada,
Vendo a malícia feia e rudo intento
Da gente bestial, bruta e malvada,
De quem nenhum melhor conhecimento
Pudemos ter da índia desejada
Que estarmos ainda muito longe dela;
E assim tornei a dar ao vento a vela.
35
"Disse então a Veloso um companheiro
(Começando-se todos a sorrir)
-"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer que de subir."
- "Sim, é, (responde o ousado aventureiro)
Mas quando eu para cá vi tantos vir
Daqueles cães, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.
36
"Contou então que, tanto que passaram
Aquele monte, os negros de quem falo,
Avante mais passar o não deixaram,
Querendo, se não torna, ali matá-lo;
E tornando-se, logo se emboscaram,
Por que, saindo nós para tomá-lo,
Nos pudessem mandar ao reino escuro,
Por nos roubarem mais a seu seguro.
37
"Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca doutrem navegados,
Prósperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite estando descuidados,
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem que os ares escurece
Sobre nossas cabeças aparece......................
