Já para não voltar a «traduzir» Kant, passei-me para outros registos até que foi a vez de Paul Ricoeur de quem li interessadamente várias obras sendo que, a certa altura, se me deparou a TEORIA DA INTERPRETAÇÃO – O DISCURSO E O EXCESSO DE SIGNIFICAÇÃO[1] cujo título do primeiro capítulo é A LINGUAGEM COMO DISCURSO.
Transcrevo um pequeno trecho...
“No Crátilo, Platão já mostrara que o problema da «verdade» das palavras isoladas ou nomes deve permanecer indecidido porque a denominação não esgota o poder ou a função da fala. O logos[2] da linguagem requer, pelo menos, um nome e um verbo e é o entrelaçamento destas duas palavras que constitui a primeira unidade da linguagem e do pensamento. E mesmo esta unidade suscita uma pretensão à verdade; a questão tem ainda de decidir-se em cada caso.”
... e traduzo-o para linguagem mais comum:
“No Crátilo, Platão já mostrara que o problema da «verdade» das palavras isoladas ou nomes deve permanecer indecidido porque a denominação não esgota o poder ou a função da fala. O significado da frase requer, pelo menos, um sujeito e um predicado e é o entrelaçamento destas duas palavras que constitui a primeira unidade da linguagem e do pensamento. E mesmo esta unidade suscita uma pretensão à verdade; a questão tem ainda de decidir-se em cada caso pelo complemento directo.”
Confesso que já não me lembro se foi na Escola Primária se no Liceu que nos ensinaram que uma frase, para ser inequívoca, tem que ter sujeito, predicado e complemento directo.
E dizia eu há dias que ia deixar de traduzir filósofos para a linguagem corrente...
Que maçada! «Para o que anda uma mãe a criar um filho».
Ainda não perdi a esperança de um dia encontrar um filósofo que escreva despretensiosamente, acessível ao comum dos mortais.
Outubro de 2016
Henrique Salles da Fonseca
[1] Edições 70, Janeiro de 2013
[2] Logos é a razão, o significado
