A bem da Nação

CHÉCIA – 6

 


 


NEM SEI QUE VOS DIGA


 


A Nação checa, apertada entre vários poderes com manias hegemónicas, tem sido bombo para toda a festa europeia e só mesmo em finais de 1989 é que conseguiu, finalmente, passar a governar-se pela sua própria cabeça. É claro que poderíamos referir o 28 de Outubro de 1918 como o dia na fundação da Checoslováquia mas na verdade esse foi Sol de relativamente pouca dura pois em 1938 o «caldo» entornou-se e não tardou muito para que o país fosse retalhado e finalmente invadido por Hitler. Liberto deste, cai nas garras de outro tão bandido como ele, Estaline. Ou seja, a verdadeira liberdade checa só se alcançou duradoiramente em 1990 com a realização de eleições efectivamente livres. E, mesmo assim, neste período de paz de 23 anos, houve a secessão da Eslováquia. Mas sobre tudo isto há muito por onde ler na Internet pelo que passo à frente...


 


Nunca imaginei que em Praga me pudesse lembrar da actual questão galega mas, na verdade, quando a Boémia integrava a parte austríaca do Império Austro-Húngaro (e a Eslováquia a parte húngara do mesmo Império), a língua oficial era o alemão e ponto final no bilinguismo: a língua checa só era permitida no Teatro Nacional de Praga e nos passeios à sua volta. E, contudo, a reconstrução linguística fez-se e o checo é hoje uma língua completa, independente e... totalmente incompreensível para mim apesar de eu me considerar poliglota. Não há, pois, razões que impeçam os galegos de retomarem a sua própria língua. A menos que não queiram...


 


 


Teatro Nacional, Praga



A organização dos circuitos turísticos tem obviamente que procurar satisfazer o maior número possível de clientes e é assim que damos por nós a ter que ouvir explicações sobre o número de lugares dos estádios desportivos, os nomes dos futebolistas mais famosos e respectivos clubes, referências aos Festivais da Canção, etc. Mas visitar Praga e não ouvir uma única referência a Kafka (passando de fugida frente ao seu memorial), a Smetana, a Dvorak, a Milan Kundera ou sequer à célebre Defenestração, é lastimável. Foi-nos apenas referido que Mozart compôs em Praga a sua ópera Don Giovanni. Mas este, antes de ser um vulto mundial, era um valor austríaco e não checo.


Assim, nem sei que vos diga...


 


 


É claro que eu não poderia deixar-me ficar por cenário tão limitado e vinguei-me: comprei um livrinho intitulado «Franz Kafka and Prague» onde aprendi que, com alguns séculos pelo meio, a família Kafka viveu num prédio que tinha sido propriedade de um Fulano sobre que eu nunca ouvira falar e que dera pelo nome de Philipp Fabricius Platter von Rosenfeld que fora Chanceler da Boémia e que em 1618 se pôs a jeito de ser defenestrado assim sugerindo uma boa acção aos nossos restauradores de 1640.


 


E da próxima vez que formos a Praga darei ordem de prisão a quem referir o número de lugares de um qualquer estádio desportivo.


 


Lisboa, Janeiro de 2013


 


 Henrique Salles da Fonseca

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