Casa da Avó, Setembro 1
Às vezes, quando te via inquieto
Perguntava-te:
- Que horas são, meu amor?!
E tremia por dentro
Com medo que me falasses em partida...
Hoje, porém
Envelheço, anoiteço
E já não temo
Porque sei chegada a hora.
Vi-a, há pouco,
Dentro dos teus olhos!...
Casa da Avó, Setembro 9
Março findava
E chegaste com as andorinhas...
Os primeiros chilreios geraram o encantamento
E o amor, subindo em espiral,
Aninhou-se no peito, nos olhos
E nidificou na boca
E nas mãos...
Não notamos sequer que o Verão passou
E que os últimos raios de Sol partiam já
Incandescentes
No bico das andorinhas
Levando com eles Outonos de promessa...
Prenúncios de frio chegavam do Oriente
E tu, chegado com as andorinhas
Partias com elas!...
Casa da Avó, Setembro 15
Uma vez mais te esperei para o almoço
E não vieste!
Tirei as plantas do Sol
Que está muito forte
E coloquei na mesa
A melhor toalha de linho
(tinha que ser de linho)
Aquela bordada
Onde as papoilas parecem ter vida;
E não vieste!
O Sol, há muito que se foi...
Voltei a colocar as plantas lá fora
Para que possam receber
Os seus primeiros raios
Quando chegar,
Dei leite à gata
E aferrolhei a porta.
Deixei na mesa a toalha de linho
Bordada com papoilas
À espera que amanhã
A Primavera
Te traga para o almoço!...
