A bem da Nação

CARTA DE LISBOA

SEM POMPA NEM CIRCUNSTÂNCIA


 


A literatura é um dos mais relevantes índices da maioridade cultural de um povo. Tem sido pela mão da escrita que o sentimento nacional se afirma e disso é prova que todas as Nações têm poetas e romancistas como seus valores maiores.


 


Rabindranath Tagore é um dos maiores representantes da cultura indiana; Victor Hugo, da francesa; Jorge Amado, da brasileira; Goethe, da alemã; Camões, da portuguesa; José Craveirinha, da moçambicana e assim por aí além…


 


Mas se uns tocam os cumes do génio, muitos outros fazem a grande base cultural, a que nasce do comum dos mortais e por isso mesmo devem ser considerados como os genuínos do sentimento comum - sem os louros das Academias, uns populares e outros eruditos.


 


E assim me lembro do poeta popular António Aleixo (1899 - 1949) que era um repentista quase analfabeto mas que encerrava sentimentos de grande pureza e acuidade no Portugal do seu tempo…


 


Porque o povo diz verdades,


Tremem de medo os tiranos,


Pressentindo a derrocada


Da grande prisão sem grades


Onde há já milhares de anos


A razão vive enjaulada.


 


Lembro-me também de Noémia de Sousa (1926 – 2002), uma das mais genuínas poetisas moçambicanas que tão bem retratou os jovens do seu país no «Magaíça», esses rapazes que só eram considerados homens depois de trabalharem dois anos nas minas sul africanas…


 


A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda


Engoliu o mamparra,


Entontecido todo pela algazarra


Incompreensível dos brancos da estação


E pelo resfolegar trepidante dos comboios


Tragou seus olhos redondos de pasmo,


Seu coração apertado na angústia do desconhecido,


Sua trouxa de farrapos


Carregando a ânsia enorme, tecida


De sonhos insatisfeitos do mamparra.


E um dia,


O comboio voltou, arfando, arfando...


Oh nhanisse, voltou.


E com ele, magaíça,


De sobretudo, cachecol e meia listrada


E um ser deslocado


Embrulhado em ridículo.


Ás costas – ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?


Trazes as malas cheias do falso brilho


Do resto da falsa civilização do compound do Rand.


E na mão,


Magaíça atordoado acendeu o candeeiro,


À cata das ilusões perdidas,


Da mocidade e da saúde que ficaram soterradas


Lá nas minas do Jone...


A mocidade e a saúde,


As ilusões perdidas


Que brilharão como astros no decote de qualquer lady


Nas noites deslumbrantes de qualquer City.


 


E do Brasil trago Mário Quintana (1926 – 2011), o poeta da bondade, que por duas vezes foi recusado pela Academia Brasileira de Letras e em que ele recusou entrar quando tardiamente foi convidado…


Mario-Quintana.jpg


 


POEMINHA DO CONTRA


Todos esses que aí estão


Atravancando o meu caminho,


Eles passarão…


Eu passarinho!


 


Finalmente, lembro Vimala Devi, poetisa de Goa nascida em 1932 que nos disse que…


Vimala Devi.jpg


Na madrugada de lágrimas e de esperança


Teu pranto é o meu


De ti vem um apelo


Dolorido e ancestral


No meu pensamento serás sempre


O eterno sonho luso


Comunhão de mosteiros e pagodes


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On this morning of tears and of hope


Your lament is mine


From you comes a call


Pained and ancestral


In my thoughts you will always be


The eternal Portuguese dream


Communion of monasteries and pagodas


 


E o que une todos estes grandes poetas? Todos ficaram do lado de fora das respectivas Academias que, como dizia Carlos Drummond de Andrade, “só atrapalha a criatividade, só dá para ministro.”


 


Lisboa, Fevereiro de 2018


Henrique Salles da Fonseca, Barril-8AGO15-2.jpgHenrique Salles da Fonseca


 

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