Para D. Rodrigo Xavier Teles de Meneses,
4° Conde de Unhão (12° Senhor de Unhão)
Ilmº. e Exmº. Senhor:
Nesta cidade se acham presos António Fernandes Pereira e Luís José da Rosa, à ordem do Corregedor do bairro de S. Paulo, pelo contrabando que lhes foi achado no iate por invocação Santo António, vindo do porto dessa cidade que é destes negociantes, e a quem pertence a sua carga.
Nas perguntas que lhes fez o Corregedor, confessou António Fernandes «que um caixotinho de relógios ingleses portencia a João de Azevedo, criado particular de V. Exa.»; e provou a sua confissão com algumas cartas do mesmo Azevedo, e com duas ordens, como Portarias, assinadas por V. Exa. e passadas pelo Secretário do Governo.
Este vergonhoso facto pedia exemplaríssimo castigo, se dele se tomasse conhecimento, e fosse com efeito sentenciado como mandam as leis; pois que em todas as circunstâncias ressabe inteiramente ao despotismo, que praticaram os senhores acastelados e os régulos que viveram no século da ignorância e barbaridade, com escândalo e horror da humanidade, com injúria do poder dos Reis, e, o que é mais, sem temor de Deus.
Sua Majestade, porém, como príncipe magnânimo e pio, conhecendo que V. Exa. ignora as obrigações de vassalo è as regras do ofício de bom Governador, usando da sua piedade, é servido ordenar— «que V. Exa. se abstenha de passar semelhantes ordens, não favorecendo, nem ainda permitindo ou tolerando que haja, nem passem contrabandos nos portos desse Reino, debaixo da pena imposta aos que cometem semelhantes crimes, e de V. Exa., cair no seu desagrado.
Por agora se satisfaz S. Majestade com mandar que V, Exa. compre as Ordenações do Reino, juntamente com as suas Leis Extravagantes, e faça ler cada dia ao seu secretário quinze ou vinte parágrafos, a que V. Exa. assistirá, por espaço de seis meses; cuja pontual execução confia Sua Majestade da honra de V. Exa., esperando que lhe evite o dar outras providências alheias da sua vontade e podem ser injuriosas a V. Ex.ª", a quem S. Majestade estima muito.
Deus guarde a V. Exa.
Lisboa, no Paço, a 21 de Março de 1741.

Alexandre de Gusmão
Notas acessórias:
1 – Este D. Rodrigo era descendente de D. Fernão Teles de Meneses (1432-77), 3° senhor de Unhão, companheiro de D. Pedro na Batalha de Alfarrobeira, mais tarde perdoado, sepultado num túmulo lindíssimo na Igreja de S. Marcos de Tentúgal. Família que os reis muito consideravam.
Não consegui apurar o que D. Rodrigo governava quando fez esta “maracutaia”! Só apurei que tinha sido capitão-general e governador do Algarve! A verdade é que ali passavam barcos ingleses....
2 - Curioso é haver um outro D. Rodrigo, mas César de Meneses, contemporâneo, que foi governador de S. Paulo, Brasil, quando se descobriram as minas de ouro de Cuiabá. Foi ele quem organizou a primeira remessa de ouro para a corte, em quatro caixotes que deveriam conter sete arrobas de ouro, mas quando chegaram a Lisboa descobriu-se que vez de ouro tinham mandado chumbo, e nunca se descobriram os culpados! (Hoje seriam quatro milhões e meio de Euros!)
3 - Não foi o D. Rodrigo César de Meneses a quem D. João V mandou a carta acima, porque este morrera em 1738 quando regressava a Lisboa depois dum governo em Angola.
Rio de Janeiro, 12/12/2012
