
Meus Amigos,
Há muito, já, que vos devia ter escrito esta carta, pois sem dúvida lhes devo os meus muito sinceros agradecimentos. Vocês são credores da minha gratidão, pois me prestaram o melhor serviço que eu poderia esperar de alguém – mais ainda, prestaram-me um serviço tão bom que eu não era capaz de sonhar vir a tê-lo.
Como calculam, eu considero-me razoavelmente inteligente. E, por isso, consegui ter na mão um País e as suas gentes, fazendo dele aquilo que me apetecia durante algumas dezenas de anos. Não sendo pessoa de grandes ambições, contentei-me com governar lá do meu buraco de São Bento e, como sabia que a massa dos portugueses não era grande coisa – basta ver como aquilo andava em 1926, quando foi o 28 de Maio e, mesmo depois, até me chamarem para o Governo – resolvi que o melhor era manter uma certa mediocridade, atirando um osso aqui, outro além, dando uma «chibatada» a um outro refilão e menos dominável.
Nem tive problemas de maior e com bastante facilidade dominei tudo o que se me opunha. Como sabem, a única oposição organizada era o Partido Comunista, com o seu comando à distância, lá da Rússia, a fornecer-lhe uma máquina aperfeiçoada. Mas não me deu grandes dores de cabeça e, com uma PIDE que nem precisava de ser muito grande nem muito bruta, lá o contive da forma que viram.
Se eu dissesse isto antes do «25 de Abril», ninguém me acreditava, mas, graças a vocês, meus queridos capitães, e graças à vossa revolução, eu não preciso de ter trabalho a explicar. E por essa ajuda lhes estou muito grato. Caxias, os numerosíssimos presos políticos, torturas, o Tarrafal enorme, onde se morria imenso… Tudo isso os portugueses julgavam que era comparável aos Auchwitz e outros campos de Hitler e às chacinas de milhares ou milhões feitas por esse mundo fora.
Se eu publicasse estatísticas e dissesse aos portugueses os números, eles não acreditariam; diriam que era propaganda, que eu estava a esconder a verdade. Foram vocês, meus amigos, que o disseram – melhor: que o mostraram! – com toda a autoridade que lhes advinha de serem meus inimigos.
Quando abriram Caxias – a TODOS os presos que lá estavam – saíram de lá apenas uns 80 entre os quais alguns gatunos e vigaristas confessos, sãos e escorreitos, todos de punho no ar, a gritar que sim senhor, já todos eram comunistas há muito tempo! A mostrarem que, ao contrário do que se dizia, a PIDE até tinha razão quando os acusava de tal! Por esse campo de inferno terrível que era o Tarrafal, verificou-se que, num longo período de 18 anos, tinham passado apenas trezentos e tal sujeitos, praticamente todos bem culpados de fazerem e tentarem fazer revoluções para derrubar o Governo, actos pelos quais, em muitas partes do mundo, seriam logo fuzilados. E enquanto o Partido Comunista, naquela sua excelente técnica de procurar tirar dividendos dos mínimos pormenores, resolveu fazer uma grande propaganda com a transladação dos mortos do Tarrafal, teve que se contentar com o modesto número de 32 cadáveres. Em 18 anos num campo tão terrível, morreram 32 presos! Se os portugueses parassem um momento para raciocinar – o que parece serem incapazes de fazer – veriam como a modéstia desse número está em desacordo com o que a propaganda dizia. É claro que o Tarrafal não era um campo de férias, mas sim uma prisão. Nem me admira nada que se tenham cometido por lá variadíssimas excessos. Mas o que isso foi, na realidade, comparado com o que a propaganda fazia imaginar, mede-se pelos 32 mortos, em 18 anos. Nos 5 anos depois do «25 de Abril», e por via do terrorismo que passou imperar, morreram – heroicamente, no seu posto – outros tantos agentes da autoridade, só na Metrópole. E aqueles que viram passar o cortejo dos do Tarrafal e não foram, a correr, fazer uma homenagem muito maior aos honestos polícias e guardas republicanos caídos no cumprimento do seu dever, mostraram não ser dignos desses mortos honrados.
Quanto às horríveis torturas dos presos políticos, não será estranho que todos eles, com muitos anos de prisão em tais circunstâncias, apareçam agora sãos e escorreitos e ali estejam, bem engravatados, na Assembleia da República e noutros lugares importantes?
Que faltará aos partidos não marxistas para denunciarem isto tudo? Por que razão não mostram aos portugueses, equilibradamente, as realidades? Felizmente para mim, nada que preste apareceu – e assim o contraste é maior.
Claro que dos vários partidos marxistas – da UDP ao PS – não haveria melhor a esperar, pois todos eles defendem a “apropriação colectiva dos meios de produção e distribuição, etc., etc.” Mas os outros?
Como eu achei que uma Censura me evitava aborrecimentos vários e a mantive sempre, mais ou menos rígida conforme as circunstâncias, muitos eram os que bramavam que ela impedia a publicação de magníficas obras em prosa ou em verso, os filmes do mais elevado nível cinematográfico, etc., etc. E os portugueses pensavam que nas gavetas desses intelectuais se encontravam verdadeiros tesouros literários, que apenas não viam a luz do dia por causa da Censura.
E, foram vocês, meus Amigos, que desfizeram esse mito. Foram vocês que, involuntariamente, por certo, atiraram para a lama os nomes de muitos «intelectuais» da antiga «oposição». Libertos de todas as peias, com tudo à sua disposição e quando alguns, honestamente, esperavam o aparecimento duma torrente de valiosíssimos trabalhos … nada! Os poucos que apareceram eram tão pobres, tão miseráveis, tão imbecis, que o povo teve uma verdadeira desilusão! Afinal, não era a Censura que impedia que aparecessem firmados pelos homens da «Oposição», os livros magníficos, os poemas belos, as obras do Cinema, do Teatro, da Televisão com uma categoria excepcional. Nada disso apareceu, porque, se os da «situação» eram medíocres, os desta «oposição» ainda o eram mais! Já repararam que, se vocês não têm aparecido, se a Censura tem durado mais tempo, os falsos intelectuais de agora não teriam sido postos a nu? …
Durante anos eu despolitizei o povo, levei-o a pensar que não tinha nada com a política e que devia ter horror à política. Era um caminho algo difícil – que, aliás, me foi facilitado pelo chafurdo que era a política do 28 de Maio – mas, com a minha persistência habitual, lá fui conseguindo bons resultados e o povo português não ligava muito à política.
Mas vocês vieram despertá-lo desse letargo. Vocês vieram dizer-lhe que o povo tinha que ser politizado e além de bons esforços para o politizarem, por vezes de forma camuflada – lembram-se das campanhas de alfabetização? – «mostraram-lhes» o que era a política e, sobretudo, o que eram os «políticos». Essa mostra foi muito facilitada, porque cedo apareceu na ribalta um numeroso grupo de políticos autênticos, homens de vasta «experiência política», apresentados como tal e, portanto, muito superiores àqueles pobres tecnocratas do antigamente. E passaram a ser conhecidos de toda a gente uns senhores – os tais cheios de «experiência política» - até então desconhecidos ou quase. Muito povo acreditou e até muitos votaram nessa gente, embora tivessem que o fazer indirectamente, pois lhe vedaram a escolha de pessoas e lhe impuseram a escolha de partidos, assim a modos que uma espécie de clubes que passaram a ser os donos do povo.
Mas não tardou muito que o povo descobrisse – pela análise dos factos – que «experiência política» de alguns era apenas ser capaz de dizer hoje uma coisa e no dia seguinte totalmente o contrário; defender hoje uns princípios que «se deveriam aplicar universalmente» e amanhã negá-los, por palavras ou por acções quando a sua aplicação já não lhes convém; prometer muita prosperidade e riqueza, enquanto não têm o mando efectivo, e dar depois austeridade e privações; falar contra a corrupção, a desonestidade, o nepotismo do antigamente e, depois, cometer todos esses graves pecados em escala ainda muito maior. O povo concluiu, afinal, que «experiência política» era muitas vezes uma imensa capacidade de ser aldrabão, trafulha, arrangista, etc., etc., sempre com a mesma cara e sempre com um monumental descaramento. E foi assim que ele começou a ganhar uma aversão à política e, principalmente, aos políticos, muito maior do que aquela que eu lhe incutira. Lembra-me de ver, em 1974, na Televisão, o então ministro do Ultramar (embora com outro rótulo) acabado de chegar de Timor. Ainda vinha meio esparvoeirado e (aquilo foi superior às suas forças) no meio da sua desorientação confessou tudo o que vira. E a prova que dessa vez ele, habitualmente tão seguro de si e tão controlado, perdeu esse controlo, foram os termos estupidamente sinceros, (estupidamente para o ponto de vista dele, claro) em que falou do portuguesismo dos timorenses e como repisou mesmo, chamando a atenção para o facto de se «tratar de patriotismo autêntico e não de patrioteirismo barato»
O cúmulo do descontrolo foi a raiva mal disfarçada com que terminou o seu discurso, dizendo “ … já que Timor não quer ser descolonizado …” bem revelador do que queriam fazer, a todo o custo, os homens do 25 de Abril.
É evidente que, se os portugueses tivessem um pouco de senso e um pouco de energia, só essa frase final teria dado pano para mangas para vos atacarem e para mostrarem a realidade da situação. Assim, apenas serviu para mostrar que eu tinha razão, sem qualquer outro resultado prático, pois lá conseguiram fazer com que Timor fosse expulso de Portugal – embora não da forma que desejavam – perante a cobarde falta de reacção de uns milhões de portugueses.
Em consequência da minha razoável inteligência, eu tinha consciência das minhas limitações e daquilo que, por uma razão ou por outra, nunca tinha sido capaz de fazer. Dois campos, mais que todos, deixei a descoberto e em flagrante atraso: a Educação e a Economia. Devem ter sido as únicas pastas de que nunca fui ministro …
Semeei o País, com umas quantas escolas primárias, mas menos do que era preciso e em ritmo que abrandou nos últimos tempos. No resto, pior ainda. As universidades andavam por baixo e por baixo se mantiveram. Deixei criar umas quantas universidades novas e coisas parecidas mas, como não havia gente qualificada que chegasse para as guarnecer, sabia que se iriam arrastar durante anos até atingirem posição razoável – se lá chegassem…
Na Economia, foi praticamente a mesma coisa. Fiz uns jeitos a uns industriais de meia tigela, com uns condicionalismos e umas protecções alfandegárias, para que não tivessem preocupações com a concorrência, especialmente do estrangeiro eficiente. Acarinhei um vasto Comércio (bem mais do que o necessário) que vivia de comprar barato e vender caro, sem que os produtores e os consumidores – tacanhos ambos – se lembrassem que há no mundo coisas chamadas “ cooperativas”, que são a resposta a esse mal.
Mantive uma agricultura atrasada que propositadamente não desenvolvia, em que um terço da população não conseguia produzir alimentos que chegassem para o País Deixava que alguns vivessem à custa de explorar essa massa de servos da gleba, onde apenas alguns ricaços, porque tinham muita terra, lá iam ganhando uns patacos. Mas até os «latifundiários» se contentavam com bastante menos do que lhes daria, em mais rendosas actividades, o valor das propriedades que possuíam.
De vez em quando, naturalmente, havia um ou outro lampejo de desenvolvimento em todos esses sectores. Mas eram pequenos fogachos e no conjunto não tinham grande significado.
Pois até nesses campos vocês vieram fazer pior e conseguiram que o «antigamente» parecesse bom! Importámos, em 1973, uns treze milhões de contos de produtos agrícolas alimentares, mas em 1979, esse número foi de mais de cinquenta milhões de contos!
Por momentos, no dia 25 de Abril, ainda tive um pequeno sobressalto. Felizmente, logo comecei a ver que não havia perigo de confronto. Mas imaginemos o que teria sido um «25 de Abril» competente e honesto – que até nem era difícil, se os duzentos ou trezentos que o fizeram fossem competentes e honestos.
Claro que, se fossem honestos, teriam que cumprir o compromisso – que assumiram voluntariamente – no chamado «Programa do Movimento das Forças Armadas», na base do qual foram aceites pelo povo português. Ali se promete que nenhuma reforma de fundo será feita antes de eleições livres, que permitam que as leis sejam feitas por autênticas representantes do povo – e faltaram descaradamente ao prometido, levando o povo a considerá-los vigaristas. Ali se fala do direito à autodeterminação – e também, sem quaisquer escrúpulos, faltaram à palavra, para entregar à Rússia vastos territórios e milhões de bons portugueses.
Reparem que esta carta é para os meus queridos capitães de Abril, no conjunto. Alguns, de entre vós, que não quisessem fazer o que o conjunto fez, não têm desculpa agora. Deveriam antes ter visto a quem se associavam, que garantias possuíam – e não armarem em aprendizes do feiticeiro.
Imaginemos, por um momento, que a revolução tinha sido competente e honesta, feita por pessoas cujo objectivo era darem aos portugueses – de todo o mundo – aquilo que lhes prometeram e que eram capazes de realizar.
Não sabemos, ao certo, como seria a descolonização. Mas sabemos que não teria sido como foi e o resultado teria sido fantasticamente deferente. É possível que várias das parcelas quisessem continuar parte de Portugal – embora, naturalmente, com a autonomia que lhes era devida e sempre, como eu apregoava – mas não fazia – em autêntico pé de igualdade. De Timor temos o insuspeito depoimento de Almeida Santos, mas não creio que fosse o único pedaço a querer continuar a ser Portugal.
De qualquer forma, mesmo os que se tornassem países independentes, certamente manteriam laços com Portugal – e não com «cooperantes» cubanos … Haveria, então, uma autêntica comunidade lusíada a constituir uma força – política e, até, certo ponto, também económica – com que o mundo teria que contar e que teria que respeitar.
Como as finanças do país estavam bem sólidas, o problema dos financiamentos estava resolvido. Não devem esquecer que, se à Economia não liguei nada – e nem dela quis saber muito – em Finanças, a minha competência, era de alto nível. Lembrem-se de que foi por causa do grave problema financeiro – o mais crucial nessa altura – que, em 1928 me chamaram para o Governo. Além do que havia «em caixa» (uns bons milhões de contos em ouro e divisas estrangeiras) não teriam qualquer dificuldade em conseguir crédito para investir em algo produtivo, se o pé de meia que eu tinha amealhado não chegasse.
O que seria então uma indústria a desenvolver com empresários dinâmicos e inteligentes (pois só esses seriam capazes de se manter) e a aproveitarem as reais capacidades do trabalhador português – «trabalhador» a todos os níveis, naturalmente, e não apenas o operário indiferenciado. Seriam criadas novas empresas, suficientemente activas e eficientes para darem bom nível de vida aos seus empregados, capazes de produzirem muito, barato e de boa qualidade para competirem com o estrangeiro.
Haveria sindicatos autênticos – e não meras sucursais dos partidos políticos – capazes de dialogarem com o patronato, de forma a não deixarem que o trabalhador fosse explorado, mas não destruindo as empresas, pois isso seria matar as galinhas de ovos de ouro. A Assembleia – que talvez até se chamasse da República – faria leis que protegessem o trabalhador activo, honesto, eficiente, distinguindo-o do relapso e mandrião.
Portugal teria uma agricultura desenvolvida, aproveitando algumas condições naturais privilegiadas e sabendo defender-se dos males que também a Natureza nos concedeu. Uma Agricultura onde os homens trabalhassem de forma realmente produtiva, usando métodos modernos e eficientes, em paralelo com os outros sectores e não a eles subordinados. Uma Agricultura capaz de produzir os mais saborosos frutos e as mais belas flores que o mundo disputaria.
Até para isso havia por cá técnicos competentes, uns rapazes que tinham aprendido coisas – alguns no estrangeiro – mas que eu «chateava» suficientemente para se manterem sem possibilidades de produzir. Muitos já se tinham ido embora, para o estrangeiro, definitivamente, mas os que cá estavam eram mantidos com poucos meios de trabalho, magros vencimentos e, quase sempre, subordinados a chefes incapazes, propositadamente escolhidos para que tudo não andasse.
O que seria se vocês tivessem clarificado a situação! Em duas penadas se mudava o sistema, se aproveitavam as consequências e o panorama seria outro. Havia já muito trabalho avançado, que quase imediatamente daria frutos se lhe tirassem as peias que eu pusera. Havia quem fosse capaz de ensinar aos agricultores como é possível produzir mais, às vezes com menos esforço, e havia milhares e milhares de agricultores desejosos de aprenderem essas melhorias.
Em quase todos os sectores o panorama era idêntico. Havia a grande possibilidade de dar, a curto prazo, um enorme passo em frente e embasbacar o mundo com o «milagre português».
Mas, felizmente, vocês não fizeram nada disso e eu posso dormir descansado, pois não se se vai dar o confronto que eu cheguei a temer. Tenho só que lhes agradecer, pois apesar desses sectores estarem mal, vocês tornaram-nos piores ainda. Onde eu tinha chefes razoavelmente incompetentes, vocês tiraram-nos e puseram outros ainda piores. Noutros casos até mantiveram os mesmos que, assim como dantes, na esperteza oportunista da sua incapacidade real, me juravam fidelidade na UN e coisas parecidas, agora lhes juram a vocês fidelidade igual. E como são, realmente. incapazes, lá vão mantendo a miséria, aumentando o descalabro, afundando mais essa pobre terrinha. Que alívio para o bom nome da minha pessoa na posteridade! Vocês foram a sorte grande que me saiu. Obrigado, meus Amigos!
António O. S.
Este escrito, publicado no Tempo de 14 de Agosto de 1980, não foi, por razões evidentes, assinado com o meu nome. E, em 1980, ainda Portugal não estava como está em 2013.
Miguel Mota