Viagem a fases pretéritas do nosso
(de)crescimento económico
em companhia do
Prof. José da Silva Lopes
A forma de sentir de Álvaro Cunhal situava-o num campo oposto ao de Salazar. Enquanto o professor coimbrão não podia viver sem sossego, o marxista alentejano não dispensava a revolução. Para ele, revolução era a única forma de vida aceitável[1]. Tinha contudo em comum com o anterior ditador o desprezo pela riqueza, pelo crescimento económico. No período em que foi rei, a economia ficou submetida de novo - e furiosamente - ao intervencionismo de estado e ao protecionismo externo. O objectivo económico revolucionário - abolir a economia de mercado - tornou-se incompreensível à luz da evidência cada vez mais clara da incapacidade das economias planificadas de responderem ao desafios colocados pela economia de mercado.
A prática sistemática do regime cunhalista consistia na apropriação dos bens de produção. O sector financeiro foi imediatamente nacionalizado[2]; a iniciativa privada - considerada pecaminosa - foi escorraçada (alguns empresários foram encarcerados). A gestão das empresas foi confiada aos trabalhadores (autogestão) do que resultou o endividamento galopante que, por sua vez, obrigou à nacionalização, única forma de conseguir manter o crédito e o financiamento das empresas e autogestão. "Assim, o prejuízo da empresa pública passava a ser divida soberana do Estado", comenta o Professor. A fúria de nacionalização (na realidade confisco, uma vez que não previa indemnização aceitável). Como então se dizia, "o PREC acabava em Rio Maior"; circunstância que poupou as empresa nortenhas de têxteis, do vinho do Porto, corticeiras, madeireiras, e as das de capital estrangeiro, que viriam a constituir o primeiro núcleo impulsionador da retoma na fase seguinte.
Os maus resultados obtidos pelas empresas nacionalizadas ou intervencionadas escondiam-se debaixo do tapete. O OGE não registava as dividas das empresas publicas. Ninguém conhecia ao certo - e nem sequer tinha ideia aproximada - o montante da dívida pública. Mais tarde apurou-se que, em 1977, cerca de 350 empresas com mais de 100 000 empregados estavam efectivamente falidas. No imediato, algumas empresas tiveram que ser encerradas e assim o país perdeu experiência acumulada e capacidade instalada em área tais como transporte marítimo, construção naval, pescas, fabrico de papel, adubos e petroquímica. A reparação naval subsistiu mas a empresa perdeu ao seus melhores quadros técnicos e ficou reduzida ao trivial no seu ramo. A faturação ressentiu-se correspondentemente.
Pior, porém, e como nos diz o Professor, "o sector empresarial do Estado tornou-se sorvedouro de recursos financeiros que deixaram de estar disponíveis para a modernização e expansão da economia." Isto aconteceu porque "faltava a disciplina do mercado".
(continua)
Estoril, 10 de Maio de 2015
Luís Soares de Oliveira
[1] Opinião de Zita Seabra no« Foi assim».
[2] Fala Silva Lopes: "O Conselho da Revolução reuniu-se e apareceu logo o projeto da nacionalização da banca. Quando o projeto foi discutido não me pronunciei contra. Disse : "Se acham que é esse o caminho, pode ser esse o caminho; a única coisa que não podem fazer é nacionalizar os bancos estrangeiros, porque isso levanta dificuldades muito sérias." Queriam nacionalizar o Montepio, e eu disse que não fazia sentido. Até houve uma pessoa muito conhecida, não vale a pena dizer o nome, que queria nacionalizar a CGD! Disse-lhe que a CGD já estava nacionalizada".
