A bem da Nação

CAMILO CASTELO BRANCO E OS BRAGANÇAS – 2

 


Por que razão Camilo Castelo Branco não gostava dos Braganças?


Não sei, e agora tento descobri-la.


 



Manuel Joaquim Pinheiro Chagas


 


 


Na "História de Portugal" de Pinheiro Chagas, que foi contemporâneo e amigo – suponho – de CCB, lê-se no volume V, 3ª Ed., 1901, o seguinte (pág. 406):


 


"A paz de Westphalia (fim da guerra dos 30 anos na Europa central) assustara muito D. João IV; viu-se a braços com o imenso poder da Espanha e desconfiou da fortuna; mas no seu tranquilo egoísmo, D. João IV entendeu de si para si que a revolução de 1 de Dezembro se fizera unicamente para se lhe dar um trono a ele, e para se vindicarem os direitos da sua casa; a questão da independência do reino, da sua autonomia, era uma cousa perfeitamente secundária, que podia pôr-se de parte, logo que se conseguisse o principal, que era reinarem os Braganças, e quanto mais largo fosse o trono melhor.


 


António Vieira devia por conseguinte tratar do casamento de D. Teodósio com a infanta de Espanha, fazendo sentir aos diplomatas espanhóis que esse era o único modo de reconstituírem a tão apetecida união ibérica, pois que pela força das armas nada fariam.


 


As condições do casamento seriam que, não tendo el-rei de Espanha filho varão, como nessa época não tinha, lhe sucedessem D. Teodósio e a infanta no trono de Portugal e Castela, mas que, se houvesse filho varão, reinariam os dois em Portugal, separado politicamente, mas estreitamente unido à Espanha por uma aliança ofensiva e defensiva. Se Filipe IV insistisse em não reconhecer a realeza de D. João IV, D. João IV abdicaria logo em seu filho e na infanta.


 


O padre António Vieira desempenhou-se com grande zelo da sua missão, tratando o negócio com uns jesuítas espanhóis que encontrou em Roma, muito influentes na


côrte do seu país. Depois de lhes encarecer todas as vantagens dessa solução, depois de lhes pintar quão dificilmente conseguiria a Espanha domar-nos, António Vieira mostrava-lhes que esse casamento faria com que a Espanha recobrasse num só dia, e sem derramar uma gota de sangue, o que num só dia perdera, e que cobraria melhor ainda do que o tivera antes de 1 de Dezembro, pois que, por meio deste casamento, Portugal se fundiria completamente com a Espanha, formando deveras um corpo compacto, e a condição única posta por António Vieira a essa união era que fosse Lisboa a capital dessa vasta monarquia!


 


(Isto parece, ou é, conversa de traidores. Desculpemos António Vieira, que estava num período muito turbado da história de Portugal, quando seria fácil surgirem ideias muito tolas na cabeça dos responsáveis com carácter vacilante. Como sucede hoje em dias, em que tolas ideias surgem na inteligentzia, como "união ibérica", "união europeia", etc.)


 


(Seguem-se mais duas páginas em que se transcrevem as palavras escritas sobre o assunto por um brasileiro, João Francisco Lisboa, "reflexões" - diz Pinheiro Chagas - "de tal forma acertadas e eloquentes, que estando com ele plenamente de acordo, não hesitamos em substituir a sua prosa à nossa" [Trata-se de "Vida do padre António Vieira", de J. F. Lisboa]).


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E depois da transcrição, que não copio, escreveu Pinheiro Chagas o seguinte:


 


"Nada acrescentaremos às nobres reflexões do escritor maranhense; apenas lembraremos ao leitor que nisto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum traidor, que, por interesses pessoais ou de família, projectasse vender à Espanha a independência da pátria, esse traidor não foi Francisco de Lucena, foi D. João IV."


 


(Ver no Google: Francisco de Lucena e João Francisco Lisboa)


 


Joaquim Reis

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