Chuva de molha-tolos (cont.)
v Finalmente, estão a vir a lume os primeiros números seguros sobre o colapso do mercado norte-americano das hipotecas residenciais de risco elevado (subprime). Para um total de capitais aí em risco que se estimava em USD 160 mil milhões (mais coisa, menos coisa), cerca de USD 100 mil milhões foram já (até 30/09) escriturados como perdas.
v UBS, Merril Lynch, Stanley Morgan, Citigroup, Credit Suisse-First Boston, vários Bancos britânicos, enfim, todos os "grandes nomes" da Banca internacional nas duas margens do Atlântico (à excepção de Goldman Sachs que, parece, previu a tempo a tormenta que se estava a formar) acabam de divulgar prejuízos na casa dos nove dígitos (mil milhões) nas suas carteiras de hipotecas residenciais.
v No universo dos hedge funds as coisas também não têm corrido bem: só em Agosto passado os prejuízos divulgados foram da ordem dos 1.32% (segundo HFR/Hedge Fund Research), contra lucros bem acima do índice S&P 500 nos doze meses anteriores. Alguns entraram mesmo em liquidação, como o Basis Yield Alpha Fund da UBS (USD 2 mil milhões), vários da Bear Sterns e tantos Quantum Funds de menor dimensão.
v Dos Fundos de Pensões e de outras Entidades de Investimento Colectivo, nada se sabe, ainda.
v É certo que nem todas estas perdas ocorreram no segmento subprime, muito menos tiveram origem no mercado norte-americano. Deste, sabe-se (cortesia da Federal Reserve) que o número de hipotecas accionadas passou de 225,000/trim (média no período JUL2006-JUN2007) para 320,000 no 3º trimestre de 2007 – o que é dizer, um "salto" de +42%. Há 6 meses, as taxas de incumprimento irreversível (medido este em valor) no segmento subprime oscilavam entre 5% e 8%, mas no trimestre agora findo atingiram 16%.
v No segmento prime, as taxas de incumprimento têm permanecido no patamar histórico de 1%; mas no segmento Alt-A (aquele cujos devedores, não sendo prime, também não representam um risco por aí além), subiram de 1% para 3% - uma evolução preocupante porque, ela sim, afecta directamente os Balanços das Agências de financiamento (e refinanciamento) hipotecário nos EUA (FHLB, FNMA, FHLMC, GNMA – estatutariamente impedidas de operarem no segmento subprime). Acontece que estas "agências de dívida" são, de par com o Governo Federal norte-americano, os maiores emitentes de obrigações de taxa fixa, no mundo.
v Para surpresa de muitos, os créditos hipotecários não-residenciais, precisamente aqueles que mais preocupavam a Federal Reserve no início do corrente ano (e que haviam estado na origem da crise das Savings&Loans, em 1991/1992 – crise que, recorde-se, custou ao contribuinte norte-americano quase USD 1.0 trilião), parecem por enquanto alheios a toda esta turbulência.
v E nós, por cá? A avaliar pelas vozes autorizadas do Ministro das Finanças, do Governador do Banco de Portugal e de tantos analistas: por cá tudo bem, obrigado. Eu não estaria tão optimista assim. (cont.)
A. PALHINHA MACHADO
Novembro 2007