A bem da Nação

burricadas nº 45

 


A CRISE FINANCEIRA ACABOU...(V)

v    ...Resta agora amortecer os seus efeitos na esfera real da economia e reconstruir, em novos moldes, peça por peça, todo o sistema financeiro mundial (e cada um dos sistemas financeiros nacionais). Tarefas urgentes, complexas – e interligadas.

v    Que se tratava de uma crise financeira, tornou-se óbvio logo no princípio do ano. Que era algo déjà vu, também [Não há nada mais corriqueiro do que uma "bolha especulativa" que acaba em crise; antes, essas "bolhas" são sempre virtuosos ciclos de crescimento que enchem todos de alegria].

v    O que, por esses dias, vinha a lume não deixava margem para dúvidas. Qual tropeção circunscrito a um nicho menor de um mercado financeiro nacional enorme, profundo e exemplarmente eficiente! Quais créditos hipotecários sub prime que, em estimativas por alto, rondariam uns USD 400 mil milhões! Quais perdas que os grandes bancos norte-americanos poderiam sem grande dificuldade absorver!

v    O risco de crédito agravado estendia-se por igual a todos os instrumentos hipotecários (empréstimos e derivados), ia mais fundo, inquinara muito mais, já ninguém conseguia distinguir o bom do mau nos mercados financeiros - e extravasara para o exterior.

v    Esta projecção internacional de uma crise financeira que se imaginava localizada (um "foco de crise", como muitos se esforçavam por se convencer e convencer os demais) ficou bem patente quando Washington teve de salvar, a contra-gosto, a FREDDIE MAC e a FANNIE MAE. Não tanto por serem instituições financeiras a que o Governo Federal norte-americano prestava uma garantia moral, mas porque, mais chãmente, um quinto das reservas do Banco Central da China estavam investidas em dívida emitida por estas duas GSE. Situação que se repetia por esse mundo fora – principalmente, nos Bancos Centrais dos países ricos do Golfo e do Extremo Oriente.

v    Perante um cenário destes, os contribuintes tinham de saltar para arena. Era inevitável. Sempre tinha sido assim (daí o déjà vu). O que ficava por saber era que contribuintes? Só os norte-americanos? Os europeus? Ou todos, um pouco por todo o lado – fazendo jus à globalização?

v    A resposta concertada dos Governos dos países mais desenvolvidos, acolitados pelos seus colegas das principais economias emergentes, foi, pela primeira vez na história: Todos! E trouxe o problema para o campo da política internacional. [Vem a propósito dizer que aqueles que clamam contra os malefícios da inovação financeira não dão mostras de perceber que esta convergência de esforços é algo nunca antes visto - um primor de inovação financeira, que só outras inovações financeiras tornaram possível].

v    Desde cedo corriam rumores sobre o grande apetite dos Bancos europeus (e não só Bancos...) pelos derivados hipotecários made in USA. E que estes Bancos tinham ensaiado operações semelhantes nos seus mercados nacionais – tirando partido das "bolhas" imobiliárias que por lá fervilhavam também (aqui e ali, com mais intensidade até).

v    Estranho que as Autoridades Monetárias e os Supervisores deste lado do Atlântico tenham querido prolongar por tanto tempo a ficção de que tinham feito bem o seu trabalho e que tudo estava sob controlo. Sabendo, para mais, que o modelo de Banca que prevalece na zona EURO assenta em mercados interbancários muito mais entrosados, muito mais densos e muito mais profundos do que o que acontece nos EUA. Logo, o risco sistémico na zona EURO deverá ser maior e propagar-se com mais rapidez.

v    Quanto à ameaça de uma recessão - que a coisa não está fácil, não está. Mas o anúncio de que os contribuintes, entre desembolsos e fianças, vão pôr em cima da mesa € 1.9 bilhões (isto é, milhões de milhões, os tais doze zeros) tem um efeito calmante que não é de subestimar. Na realidade, uma tal intervenção situa-se no mesmo patamar de grandeza dos volumes que são diariamente transaccionados nos mercados financeiros internacionais, embora seja ainda insignificante à escala dos CDO/CDS em circulação (cujo valor nocional era de USD 62 bilhões, mas que terá entretanto diminuído).

v    Mesmo assim é pouco provável que a situação nos mercados financeiros estabilize a breve trecho, dado que: (a) todos os Bancos (e muitas outras instituições financeiras) terão de apurar os efeitos da crise nos seus Capitais Próprios e divulgar números definitivos credíveis - o que leva o seu tempo; (b) toda essa informação terá de circular e ser incorporada nos processos de decisão dos Bancos contrapartes e dos investidores institucionais, em geral – mais tempo ainda; (c) enfim, Bancos e investidores que tenham os cofres bem recheados (que os há) continuam esperançados numas compritas de ocasião, com dinheiro à vista e a preço de saldo.

v    Dizia-se à boca cheia que faltava liquidez. A realidade era, e é, porém, diferente. Liquidez é o que nunca faltou – porque a liquidez de uma economia só se extingue quando reabsorvida pelo seu Banco Central (e os Bancos Centrais outra coisa não fazem, de há um ano a esta parte, que não seja injectar liquidez, ainda que por prazos curtos, nos sistemas financeiros; só muito recentemente estes prazos começaram a ser ampliados).

v    Acontece, apenas, que no interior dos sistemas financeiros (sobretudo, o dos EUA) a liquidez tem fluído para os Bancos Comerciais (mais exactamente, para as redes de retalho bancário), bombeada pelos Merchant Banks e outros operadores do mercado de capitais. E que, na iminência de uma crise, a preferência pela liquidez dispara (a tal secreta esperança de que alguém apareça a vender ao desbarato). Que não se confunda, pois, falta de liquidez no mercado com todos os operadores de mão estendida. Muito menos com falta de liquidez na economia.

v    Quanto aos EUA, é certo que a sua Balança de Capitais regista um certo refluxo. Mas o grosso dos capitais que têm financiado os twin deficits norte-americanos pertence a investidores soberanos que nada ganhariam com uma desvalorização a pique do USD. Quer dizer, Japão, China, Coreia do Sul, até a Austrália e a Rússia, para não falar da UE, são, para já, reféns dos EUA – e vice-versa. O jogo entre eles é, no essencial, de cooperação. Qualquer movimento impensado não deixará de atingir quem o faz.

v    Com o tempo, porém, é mais que provável que esta relação (que já foi cómoda, mas que hoje incomoda) se dilua. Lentamente. Mas mal seria que só o EURO aparecesse a partilhar com o USD as funções de moeda de reserva internacional.

v    Será suficiente esta acção concertada ao mais alto nível? Não duvido. Até porque, na UE, o Zé Depositante, o Zé Beneficiário, o Zé Reformado e o Zé Contribuinte começam a descobrir que, afinal, são uma e a mesma pessoa – ou quase. Nos EUA, creio que esta aprendizagem vai acontecer pela primeira vez – e demorará, por isso, um pouco mais.

v    Mas, como será o amanhã, na ressaca desta crise financeira e das medidas que estão a ser tomadas para lhe pôr termo? (cont.)

 

Lisboa, Outubro de 2008

A. PALHINHA MACHADO

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