UMA CRISE, AFINAL, DÉJÀ VUE – I
v Um ano, e sempre, sempre com o credo na boca... Penso que já é tempo de se tentar ver o que é que esta crise tem para nos ensinar. Antes do mais, que crise é esta?
v Eis a pergunta que se ouve por aí a cada passo, mas que está irremediavelmente mal posta. De ciência feita, só é possível saber o que uma crise foi. Primeiro, há que ultrapassá-la, pois é na autópsia que ela se dá a conhecer por inteiro. Até lá, resta-nos descrevê-la como tem sido, tentando captar os seus traços mais evidentes. Esta, até ver:
Ø Teve origem no mercado dos instrumentos financeiros garantidos por hipotecas residenciais (e nos seus múltiplos "derivados") – como tantas outras antes dela;
Ø Tem-se mantido circunscrita aos principais centros financeiros do mundo ocidental – como se não existisse ainda um verdadeiro mercado financeiro global;
Ø Com excepção de uns quantos casos menores (Northern Bank, no Reino Unido; Ronskilde Bank, na Dinamarca; IndyMac, nos EUA) ainda não deu mostras de assustar o vulgar cidadão, nem provocou corridas ostensivas aos depósitos bancários – é nos mercados interbancários e no ambiente recatado das Salas de Mercados, longe das vistas do respeitável público, que tudo se tem passado até agora;
Ø Começou por atingir com maior violência os Merchant Banks que se haviam especializado no modelo originador/distribuidor e na emissão/distribuição de instrumentos de dispersão do risco de crédito (CDO, CDS e outros "derivados" totalmente exóticos) – mas tem vindo a poupar os Bancos predominantemente comerciais;
Ø Trouxe à luz do dia as fragilidades das estratégias de financiamento que privilegiam em absoluto os mercados interbancários, os mercados financeiros de médio e longo prazos e a subscrição de riscos financeiros – estratégias que ignoram os tradicionais depósitos bancários e que se excluem do conforto proporcionado pelos esquemas de protecção dos depositantes
Ø Revelou quão difícil é gerir os riscos (de crédito, de mercado e, principalmente, de reputação) que se acumulam nos Veículos (leia-se sociedades instrumentais) de Titularização de Créditos;
Ø Permitiu que a disciplina do mercado desse um ar da sua graça, o que deixou os Bancos Centrais muito, muito incomodados – surpreendente atitude por parte de quem, durante anos a fio, jurara e ansiara pelo efeito disciplinador do mercado;
Ø Enfim, lá vai atormentando os investidores, mas é como se não existisse para os depositantes – e os beneficiários dos Fundos de Pensões (tal como os segurados) ainda não sabem muito bem o que pensar de tudo isto.
v Há, certamente, notícias animadoras:
Ø Muitos Bancos Centrais (com especial destaque para o FED) abandonaram ideias feitas, velhas da Grande Depressão, sobre o ritual de combate a uma crise sistémica; alargaram o leque dos Bancos admitidos como contrapartes; acrescentaram bastantes mais títulos à lista dos que eram até então aceites como garantia; prolongaram os prazos das operações de open market (aquelas onde os Bancos Centrais surgem como um operador mais nos mercados interbancários); ampliaram e refinaram o menu das operações de open market a que podiam lançar mão;
Ø A cooperação internacional ganhou muito maior eficácia com a TAF (Term Auction Facility) – esquema pelo qual um Banco (não necessariamente um Banco em apuros) sedeado num país tem acesso à liquidez oferecida pelo Banco Central de um outro país utilizando como garantia os títulos que o Banco Central do seu país de origem está na disposição de aceitar;
Ø A TAF conseguiu evitar, até ao momento, que a crise financeira contaminasse as paridades cambiais – o que teria acontecido fatalmente se os Bancos internacionalmente activos tivessem acesso unicamente à liquidez que o Banco Central do seu país de origem oferecesse (liquidez que viria sempre denominada na moeda desse país e não na moeda em que a liquidez iria ser utilizada);
Ø Por enquanto, parece pouco provável que as taxas de câmbio entre as principais moedas mundiais (USD, EUR, CHF, YEN) iniciem um sobe-e-desce incontrolável – o que, a acontecer, fará com que esta crise salte para o topo da escala de Richter (um terramoto que torna a paisagem irreconhecível e cujos efeitos destruidores são impossíveis de prever).
Ø Enfim, os Bancos Centrais dos principais centros financeiros (FED, Banco Central Europeu, Banco de Inglaterra, Banco do Japão e Banco Nacional da Suíça) têm conseguido que a política monetária permaneça imune às repetidas injecções de liquidez – liquidez que, recordo, visa: (a) manter os Bancos solventes; (b) manter os mercados interbancários a funcionar com um mínimo de eficiência; (c) manter as taxas dos mercados interbancários próximas das taxas de referência da política monetária.
v Apesar disto, que não é pouco, as perspectivas continuam sombrias – e não é só porque o pas de deux entre estabilidade dos sistemas financeiros (injecções de liquidez) e estabilidade dos preços (política monetária) mal esboçou ainda as suas primeiras piruetas (cont.).
Setembro de 2008