A bem da Nação

Burricadas nº 24



Ai, alan,alan. que rica herança nos deixaste - i


v      As coisas pelos mercados financeiros não estão nada fáceis. A turbulência com origem no mercado hipotecário subprime norte-americano transformou-se, no final de 2007, em crise nos mercados hipotecários. E daí para uma crise financeira em boa e devida forma nas economias ocidentais foi um pequeno passo.


v      O outro lado do mundo parece, por enquanto, imune à crise que se passeia por estas bandas. E muitos esperam que de lá venham os cavaleiros brancos para salvarem as donzelas do Ocidente em aflição.


v      Entretanto, o passar do tempo tornou possível uma leitura mais simples, não tanto do que está a acontecer, mas do porquê de tudo isto. Até porque se assiste a um jogo de luz e sombras, com a luz a incidir sobre o sistema financeiro norte-americano e as sombras a protegerem a intimidade de quase toda a Banca europeia, mesmo quando uma ou outra má notícia salta para os jornais.


v      Nos EUA, já em NOV2007, as licenças de construção residencial "vivas" tinham regredido ao nível de 2001 (1.5M) depois de atingirem 2.2M em SET2005. A Administração Bush pretende congelar por um período longo o actual serviço da dívida dos empréstimos hipotecários de taxa variável. Uma proposta legislativa em discussão (FEV2008) visa dotar a Federal Housing Administration com USD 20mM transferidos do Orçamento Federal para refinanciar créditos imobiliários que se encontrem em incumprimento. O Chairman do FED, Ben Bernanke, recomendou muito recentemente que os Bancos perdoem parte dos créditos hipotecários - e sempre foi preparando a opinião pública para um surto de falências entre os Bancos locais (à imagem da crise Savings&Loans em 1991-92).


v      No mercado financeiro norte-americano, o Índice ABX/AAA (a fatia do índice dos valores mobiliários com garantia hipotecária aos quais foi atribuído um rating AAA ou equivalente) caiu, em FEV2008 para 62, quando era de 100 ainda em JUL2007. Veio a apurar-se, entretanto, que das operações de crédito originadas por Thrifts cerca de 30% tinham a garanti-las apenas 2ªs hipotecas (operações conhecidas por Home Equity Loans) que cobriam menos de 110% do capital em risco - e isto já desde 2006. Outra fatia importante (talvez 1/3) dos empréstimos subprime corresponde, de facto, a 2ªs residências. E o Office of Thrift Supervision anunciou a suspensão temporária das exigências de capital regulamentar correspondente à parcela dos empréstimos hipotecários que não esteja coberta pelo valor da garantia.


v      Ainda nos EUA, o JPMORGAN CHASE revelou que, numa carteira de USD 95mM, o peso dos empréstimos sobre 2ªs hipotecas cujo valor de mercado não cobria o capital em risco era, em DEZ2007, de 10% (em JAN2007, 3%); as perdas registadas até FEV2008 ascendiam a USD 17mM.


v      O CITIGROUP começou por anunciar perdas de USD 12mM; mais recentemente admitiu ter de abater ao Balanço, neste I trimestre de 2008, USD 15mM que não se encontram cobertos por provisões – e o aumento de capital lá terá de ser superior aos USD 18mM prometidos.


v      O MORGAN STANLEY revelou, até agora, perdas de USD 9mM (incluindo USD 700 M em operações alavancadas). E o MERRIL LYNCH, corrigiu uma estimativa inicial de perdas da ordem dos USD 8mM para os USD 18.5mM.


v      O BEAR STEARNS encerrou, em SET2007, os seus dois Fundos Imobiliários alavancados. Já em MAR2008 foi alvo de uma operação de salvamento por parte de JPMORGAN-CHASE e FED, com perdas estimadas que ultrapassam USD 20mM.


v      CARLYLE CAPITAL entrou em colapso em FEV2008. A sua carteira, inicialmente avaliada em USD 15mM é composta por créditos hipotecários com origem, na sua quase totalidade, nas Agências FANNY MAE e FREDDIE MAC (estes créditos hipotecários, que exibiam uma notação (rating) AAA, não são subprime, mas ALT A e prime).


v      As Agências hipotecárias para-governamentais GINNIE MAE e FREDDIE MAC anunciaram perdas excepcionais não divulgadas no IV trimestre de 2007. FANNIE MAE registou, até FEV2008 perdas de USD 24mM e o FED teve de intervir. Estas Agências são os maiores emitentes de Obrigações de Taxa Fixa, logo a seguir ao Tesouro dos EUA.


v      AIG/ AMERICAN INTERNATIONAL GROUP (a maior seguradora mundial), no final de 2007, estimava as suas perdas em USD 5.29mM; em MAR2008, subiu a parada para USD 17.7mM. Diversas instituições financeiras especializadas em empréstimos hipotecários e na prestação de garantias sobre hipotecas (THORNBURG MORTGAGE, MBIA, AMBAC FINANTIAL GROUP, ASSURED GUARANTY) anunciaram, entretanto, dificuldades financeiras muito graves e procuram afanosamente quem esteja na disposição de reforçar os seus capitais. Os Bancos norte-americanos continuam a contar com estas contragarantias.


v      Em contrapartida, outros Bancos de primeira grandeza, como GOLDMAN SACHS e NEW YORK MELLON não parecem ter sido afectados ainda pela crise do mercado hipotecário.


v      Na Alemanha, o DEUTSCHE BANK reconheceu, até ao momento, perdas insignificantes (€ 44M). No IKB/ DEUTSCHE INDUSTRIE BANK, pelo contrário, perdas de € 1.5mM ameaçaram seriamente a solidez do grupo KfW e, por isso, as autoridades federais alemãs foram obrigadas a tomar medidas excepcionais. O WESTL BANK reconheceu já perdas de € 1.0mM e eliminou 1,300 postos de trabalho. Sobre a Banca alemã, como um todo, o que se sabe é que absorveu 46% da liquidez emitida excepcionalmente pelo BCE entre SET2007 e JAN2008, quando representa apenas 26% do Total dos Activos na Banca da zona EURO. Os analistas vêem nesta desproporção indícios de problemas que ainda não vieram à luz do dia.


v      Na Suíça, o credit suisse / first boston anunciou perdas de USD 6.85mM. Quanto ao UBS, começou (NOV2007) por referir perdas de USD 4-5mM; em DEZ2007, essas perdas eram já de USD 8.7mM; e presentemente, situam-se em USD 12mM, tendo sido necessário reforçar os capitais próprios em mais USD 18mM com fundos vindos da China e de Singapura. A SWISS RE registou, até agora, perdas de CHF 1.5mM (já incluindo um ajustamento no valor de mercado de diversas posições em CDS, que teve lugar em JAN2008)


v      No Reino Unido, foi o NORTHERN ROCK BANK que, logo em NOV2007, perdeu mais de 40% do seu capital. Acaba de ser nacionalizado, por problemas de liquidez insuperáveis. A FSA/ FINANCIAL SERVICES AUTHORITY (Autoridade de Supervisão), em finais de OUT2007, veio a público dizer que estava a rever toda a metodologia de supervisão.


v      Na Itália, pensa-se que o UNITCREDIT (maior Banco italiano) poderá apresentar perdas de € 18mM.


v      Dos Bancos espanhóis só se sabe, até à data, que absorveram cerca de 10% da liquidez que o BCE tem vindo a injectar na zona EURO (quase o dobro do peso que têm no sistema bancário da moeda única europeia). Entretanto, as cotações em Bolsa das empresas imobiliárias espanholas (com presença importante nas carteiras dos Bancos espanhóis) caíram em média 43% entre JUL2007-DEZ2007. Mas, nalguns casos, a quebra chegou aos 88%.


v      Enfim, circulam notícias de que a verdadeira dimensão do problema subprime não são os USD 160mM inicialmente (OUT2007) previstos pelo FED, mas cerca de USD 400mM. Quanto à sinistralidade nos créditos hipotecários prime e Alt A, que tem subido desde OUT2007 (ver Burricadas nº 9) ninguém se arrisca a fazer prognósticos. (cont.)


NOTA: M-Milhões; mM-mil Milhões


 


Lisboa, Março de 2008


 


A. PALHINHA MACHADO

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