Ai! que ainda me vão aos trocos...
v Como se fosse uma grande novidade, a nossa imprensa económica começou a espalhar aos quatro ventos que o BCP vai ter de proceder a um aumento de capital – e quanto mais depressa, melhor.
v Os números que podem estar em causa, esses, não suscitaram até agora a curiosidade dos nossos jornalistas. Ficámos todos en suspense! O que irá sair dali?
v Certamente, o Leitor já se esqueceu do que eu escrevi vai para dois meses (Burricadas 13, aziago número). Isso! A necessidade de o BCP aumentar o seu capital (necessidade que, mea culpa, também não quantifiquei).
v Aquela Burricada provocava – e os comentários não se fizeram esperar. Em resposta resumi qual seria o meu programa de 3 pontos para virar do avesso o infeliz Banco:
v Contenção imediata, e redução a muito breve trecho, dos Encargos com a Estrutura (qualquer coisa menor que 20% do nível actual seria insuficiente);
v Melhorias muito, mas mesmo muito significativas na avaliação e gestão do risco (abandonando, definitivamente, a estratégia suicida de aumentar, aumentar sempre a quota de mercado, alavancada por endividamento de muito curto prazo nos mercados interbancários europeus);
v Retenção dos accionistas estrangeiros (os actuais, ou outros com iguais potencialidades, tanto faz) detentores de posições qualificadas, mas suficientemente diversificadas (para que nenhum dos accionistas estrangeiros possa assumir a posição dominante; para que nenhum pequeno grupo de accionistas estrangeiros possa conluiar-se para controlar a gestão do Banco);
v Subsidiariamente: melhorias imediatamente perceptíveis na qualidade da informação financeira divulgada (e ao dispor da Gestão Superior do Banco) – para recompor credibilidade e reputação, que andam agora pelas ruas da amargura.
v O que não disse então – nem digo agora – foi que a primeira medida tivesse de ser fatalmente um aumento de capital. E explico porquê.
v Fossem outros os tempos e o BCP poderia vender facilmente e a razoável preço (isto é, com mais valias) uma grossa fatia da sua carteira de valores mobiliários e até, talvez, uma ou outra participação – o que seria sempre uma ajuda para a recapitalização do Banco, aligeirando o esforço pedido aos accionistas.
v Fossem outros os tempos e o BCP poderia titularizar uma parte significativa da sua carteira de crédito hipotecário residencial, entregando, para compor o ramalhete, mais uns pedaços da sua carteira de crédito ao consumo (incluindo saldos por utilização de cartões de crédito) – e, com isso, realizava umas mais valias que viriam diminuir o seu activo e reforçar o seu capital, aliviando a pressão sobre os accionistas.
v Fossem outros os tempos e, se calhar, o BCP até poderia contabilizar mais valias à custa do seu Fundo de Pensões (um outro cânone da engenharia financeira em que nos superamos) – e o aumento de capital seria, feitas as contas, pouco mais que simbólico.
v Mas não. As Bolsas não estão suficientemente líquidas e, acima de tudo, não estão suficientemente profundas para acolher os volumes que o BCP tem em carteira sem um trambolhão nos preços – e as menos valias que o Banco assim registasse só agravariam o seu actual padecimento.
v Titularização de créditos hipotecários residenciais, quando a turbulência originada nos subprime ainda varre os mercados financeiros por esse mundo fora? Quando todos desconfiam de todos? Quando se tornou evidente o que sempre esteve à frente dos nossos olhos: que o mercado residencial é uma ficção e que os valores realizáveis neste mercado sobem e descem como o de qualquer outra posição exposta a riscos de mercado? (O BES, para se proteger de uma eventual escassez nos mercados interbancários teve de aumentar o passivo, através da emissão de obrigações hipotecárias - em vez de reduzir o activo por meio de operações de titularização).
v Habilidades com o Fundo de Pensões, agora que corre por aí que faltam fundos ao Fundo?
v Pelas minhas contas, baseado nas Demonstrações Financeiras de 2006, o BCP recuperaria um equilíbrio minimamente confortável com uma entrada de capital de € 2,000 milhões, para mais e não para menos.
v Custa-me a acreditar que os accionistas estrangeiros com posições qualificadas acorram, sem mais, a um possível aumento de capital desta ordem de grandeza, mesmo que seja só para manter as suas actuais posições (exceptuo os accionistas idiossincráticos como parece ser o caso da SONANGOL).
v Ora, se estes accionistas estrangeiros não acompanharem o aumento de capital (ficando, por enquanto, em aberto saber quem o fará), verão as suas posições diminuírem – e alguns perderão mesmo a qualidade.
v Para esses, o passo seguinte será, quase de certeza, vender as acções do BCP que tenham em carteira e partir para outra (na Burricada 13 traçava este cenário).
v Se for assim como eu estou a imaginar, quem subscrever esse hipotético aumento de capital deverá estar preparado para sofrer menos valias nos meses seguintes – até quando, eis o que falta apurar.
v Creio que só com um programa bem meditado, credível, divulgado com voz clara e muito bem explicado seria possível reconquistar a confiança dos accionistas (e de outros investidores) estrangeiros – e só depois se deveria falar em aumentos de capital.
v Infelizmente, vá-se lá saber porquê, a nova Administração preferiu o secretismo – lançando sobranceiramente às urtigas a finalidade subsidiária que referi mais acima: transparência.
v Pergunta: Se o BCP necessitar com urgência de um aumento de capital (que necessita, não tanto por razões de liquidez mas por razões prudenciais, de capital mínimo adequado) e se os investidores estrangeiros (excepção feita aos idiossincráticos) não derem uma boa ajuda, de onde virá o dinheiro que faltar?
v Bingo! Da CGD (e de outras empresas onde o Governo manda) – talvez com o recurso a engenharias financeiras do quilate daquela que fez tremer o BCP.
v E, tarde ou cedo, lá voarão do meu bolso uns trocos mais, agora destinados a este peditório.
A. PALHINHA MACHADO
Fevereiro 2008