A bem da Nação

Burricadas 58

 


dinheiro, esse desconhecido – I

 

v        No meio de uma crise que se alimenta de dinheiro, afinal o que é o dinheiro - esse figurão que nos arrasta de crise em crise, seja ele pouco ou muito?

v        Antes de avançar neste terreno minado por tanto preconceito míope, dois conceitos úteis: poder liberatório (o poder de extinguir dívidas independentemente da vontade dos respectivos credores) e funções monetárias (que sublinham o facto de o poder liberatório se manifestar como contraprestação em qualquer troca mercantil, seja em que momento for). Função monetária é, pois, isto: servir de meio geral de troca e de reserva de valor.

v        Primeira grande surpresa, Leitor: Por cá, como por esse mundo fora, não há dinheiro, há dinheiros. E, excepção feita às moedinhas metálicas (ou "de trocos"), dinheiro é sempre um passivo, uma dívida, uma responsabilidade à vista de alguém: de um Banco Central ou de Bancos Comerciais (apropriadamente designados por Outras Instituições Monetárias).

v        O passivo com funções monetárias do Banco Central assume duas formas: (1) a vulgar "nota" (Moeda Fiduciária /MF) a que todos têm acesso - e que é um meio de pagamento absolutamente impessoal; (2) a Moeda Escritural do Banco Central (MEBC) que só os Bancos por ele supervisionados podem deter - e cuja utilização deixa sempre um rasto contabilístico.

v        Por sua vez, os passivos com funções monetárias dos Bancos (os depósitos à ordem) são inevitavelmente registos contabilísticos (Moeda Escritural /ME) em nome de entidades que não são Bancos – registos que não é possível movimentar anonimamente.

v        A esfera nominal de uma economia é, assim, formada por duas regiões: numa, o sistema interbancário, onde apenas o Banco Central e os Bancos têm assento – aí, só a MEBC possui funções monetárias; na outra, aberta a todos, Bancos e não Bancos, circulam, com iguais funções monetárias, a ME e a MF (que, somadas, fazem o volume de dinheiro em circulação) - livremente convertíveis, sem qualquer custo, na relação de 1:1.

v        Antigamente, quando um Banco Central queria injectar dinheiro na economia, fazia-o emitindo, principalmente, MF - o que implicava a impressão de notas (vem daí dizer-se, hoje ainda, "imprimir dinheiro", "pôr as impressoras a trabalhar", etc.).

v        E procedia assim por dois excelentes motivos: (1) os empréstimos entre Bancos eram raros (o sistema interbancário tinha uma expressão residual); (2) o dinheiro faltava porque pessoas e empresas acorriam aos Bancos para retirar o seu dinheiro (tecnicamente: num lapso de poucos dias, quase toda a ME era convertida em MF). Foi assim em 1929.

v        Na presente crise, tudo se passou de modo diferente:

-            Não houve ainda uma "corrida aos Bancos" (salvo os casos do Northern Rock, Indymac e poucos mais);

-            O sistema interbancário é, agora, extremamente denso, com os Bancos a emprestarem, continuamente, dinheiro uns aos outros em quase todos os prazos;

-            A falta de dinheiro começou, é certo, em quem não conseguia pagar aos Bancos aquilo que lhes devia, mas só veio à luz do dia no âmbito do sistema interbancário - com alguns Bancos a falharem pagamentos a outros Bancos;

-            O incumprimento anunciado de alguns Bancos de grande porte ameaçava desencadear incumprimentos em série (crise sistémica) e provocar o colapso de todo o sistema interbancário e, por arrastamento, do próprio sistema de pagamentos.

v        Perante um cenário destes, onde a falta que se fazia sentir era de MEBC, "imprimir dinheiro" (emitir MF) seria completamente inútil. O que havia a fazer era emitir MEBC para permitir que, no interior do sistema interbancário, os empréstimos que se iam vencendo fossem pontualmente pagos. É isto que os Bancos Centrais têm andado a fazer sem descanso, de há quase dois anos a esta parte.

v        Se, afinal, tudo se resumia a colocar uns quantos Bancos em condições de pagar pontualmente a outros Bancos, se para isso era necessário injectar dinheiro (MEBC) nos Bancos mais periclitantes, se doses astronómicas de dinheiro (MEBC) têm sido de facto injectadas a torto e a direito - porque é que a crise não é já coisa do passado? (cont.)

Junho de 2009

 

 A. Palhinha Machado

 

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