A bem da Nação

BRUXO

 


A magia é arte antiga


Que veio pelo tempo fora,


Até ao tempo de agora


Com bastante obstinação,


Passando por La Fontaine


Que era céptico e brincalhão.


Mas agora


A coisa tem mais requinte


Apesar da muita treta:


Mete Cristo na conversa


Feita de forma brilhante,


E traduz em livro a mensagem


Para a alma descontente,


Enchendo com bom dinheiro


O seu divino mealheiro.


Não há como ser-se crente


Para assim cair em tamanha


Patranha!


Todavia, eu diria,


Que toda a forma de magia


Tem o seu quê de espantoso


Quer em carismática cabana


Quer em local luxuoso.


E as artes mágicas são tais


Hoje em dia,


Que os milagres se sucedem


Com um virtuosismo


De autêntico malabarismo,


Que nos põe de boca aberta,


Ainda mais que a La Fontaine


Que só estranhava o capital


Obtido sem ser por mal,


Da fama da mulher esperta


Para aquela gente tonta.


Mas eu própria também digo


Quando o azar anda comigo:


“Preciso de ir à bruxa,


Puxa!”:


Disse então La Fontaine


Na sua verve infrene:


«As Adivinhas»


«Muitas vezes o boato é o acaso que o gera


E o boato é que faz sempre a voga e a quimera.


Eu poderia fundamentar esta asserção:


Tudo é cabala, teimosia, prevenção;


E a Justiça, nem sempre vem à mão.


Que fazer? A moda é como uma torrente:


É preciso que ela siga o seu curso, fatalmente.


Sempre assim foi e será.


Uma mulher, em Paris, fazia de Pitonisa;


Iam consultá-la sobre cada acontecimento,


Estivesse brisa ou mau tempo.


Na perda de um fato, na dúvida sobre a existência


De amante no horizonte,


Ou no desejo crucial de saber


O tempo que o marido


Iria ainda viver,


Uma mãe irritadiça, uma esposa ciumenta…


Corria-se à adivinha


Só para se receber


O anúncio do que se desejava obter.


O jogo desta consistia


Em usar de muita habilidade


Eu hoje até diria


De muita psicologia.


Por vezes o acaso também concorria,


E tudo isso, era tão surpreendente,


Que a gente, extasiada,


Logo dizia


Ser milagre fascinante.


Enfim, embora de uma ignorância


De vinte e três quilates,


Ela passava por oráculo


Mesmo para cá do Eufrates.


Oráculo alojado num casebre;


Aí, a mulher encheu a bolsa,


E sem nenhum outro recurso,


Ganhou para o seu marido


Uma posição de relevo que os repousa;


Compra um cargo, uma casa.


Eis o casebre preenchido


Com uma nova hospedeira, a quem toda a cidade,


Mulheres, raparigas, criados,


Senhores respeitáveis, tudo, enfim,


Ia, como outrora, sem muito tino, embora,


Perguntar pelo seu destino.


O casebre tornou-se no antro da Sibila


Na vila.


A outra fêmea trouxera ao lugar, freguesia


Que fartasse.


Por mais que esta última mulher protestasse


A sua inocência na oculta ciência:


“Eu, adivinha? Que grande impostura!


Oh! Senhores, eu nem sequer sei ler!


Eu nunca conheci mais que esta cruz de Deus,


Por pecados meus, vil criatura!...”


Não houve razões nem argumentos.


Foi-lhe necessário


Adivinhar e predizer,


E ganhar, sem dar por isso,


Na oculta ciência,


Mais do que ganham dois advogados juntos


A puxar pelos seus bestuntos.


A mobília, a engrenagem,


Contribuíam para a imagem:


Quatro cadeiras mancas, um pau de vassoura,


Tudo cheirava a sabat e a metamorfose.


Se esta mulher dissesse verdade,


Num quarto bem atapetado,


Teriam troçado. A moda estava no tugúrio;


Ganhara crédito. A outra mulher arrepelava-se.


A insígnia faz o negócio, como o hábito faz o monge,


Ao contrário do que diz o provérbio,


E ela perdera o negócio.


Eu vi no Palácio real alguém mal vestido


Mas muito sabido


Ganhar bastante bem


As pessoas tinham-no tomado


Por um digno mestre a arrastar


Muitos ouvintes atrás de si.


Perguntem-me o porquê disso.


Não saberei responder.»


Eu acho que a razão disso


Está nas artes do mundo,


Que fazem que as negociatas,


Com acertos, e consertos,


E consensos e concertos,


Se fazem mais capazmente,


Na escuridão do profundo.


Por isso o fato não conta


Na hora de ponta.



 Berta Brás

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