A bem da Nação

BRUCUTU

 


À frente de um carro velho trazendo balões e cartazes coloridos seguia uma charanga, engraçada e barulhenta, cercada por artistas que desfilavam pela rua principal da cidadezinha, anunciado a chegada do circo. Instigando a meninada que se aglomerava curiosa e interessada, gritava a todos os pulmões o palhaço Paçoquinha:


Hoje tem marmelada?


Respondia a gurizada entusiasmada:


Tem sim sinhÔ


Hoje tem goiabada?


Tem sim sinhÔ


E o palhaço o que é?


É ladrão de muié


A cidade vibrava de alegria, teria divertimento garantido por uns dias. Cara pintada, cabeça glabra coberta por uma peruca de fios de lã, amarelos e eriçados, implantados nas laterais da cabeça, nariz vermelho e calças largas, presas por um suspensório frouxo, o palhaço fazia rir só com sua presença. O perna-de-pau, em bamboleio, o cospe-fogo, cheirando a gasolina, o esguio equilibrista, tantas atracções aguardadas com ansiedade mais uma vez! E naquele ano o circo trazia mais uma novidade, a mulher barbada. Grande e espadaúda, com cabelos nas ventas, era uma aberração da natureza. Desafiava em alto e bom som, para uma luta, os valentões do lugar. Sua fama corria célere, já era conhecida pelo povão, derrotara todos aqueles que se atreveram a desafiá-la nas vilas onde havia se apresentado.


Depois do circo montado, logo no primeiro dia de espectáculo, para vergonha da rapaziada, aquela estranha criatura fez jus ao que diziam, bateu no Zé da Cora, peão destemido, acostumado a domar cavalo xucro. Foi um fiasco. No disse me disse do dia seguinte, o povaréu tentava defender a imagem do homem, dizendo que ele não batia em mulher, nem mesmo na mulher barbada. Alguns fingiam acreditar na inusitada cortesia do roceiro.



 Cada vez mais segura de si, no espectáculo seguinte, tornou a desafiar com voz grossa a plateia. Sentada na arquibancada, a ala masculina assistia, ressabiada, aquela figura hirsuta rodando pelo picadeiro, à procura de algum corajoso disposto a topá-la. Para estimular, como prémio, daria a quem a derrubasse entradas gratuitas para os todos os espectáculos, enquanto a trupe estivesse na cidade. Na plateia deu-se um agito. Um grupo de adolescentes,” figuras” do lugar, confabulava. Entusiasmados com a possibilidade de protagonizarem um espectáculo e ganharem entradas de graça, empurraram um deles para o meio do picadeiro. Sem ter tempo para qualquer reacção, Luizão, o mais forte e brigão deles, rapaz simplório de 17 anos, nascido na roça, viu-se no meio do palco, sob a ovação da turba. Não teve alternativa, conhecido por todos, sem poder fugir da raia, seria o “salvador da pátria”. Marcaram a luta.


A notícia se espalhou como rastilho de pólvora em festa de São João, e estourou em rede municipal. Nos botecos e bibocas não se falava em outro assunto, a disputa do final de semana. Estavam em jogo os brios e a reputação daquela rapaziada, herdeira de gente simples, rústica, acostumada a enfrentar com mangas arregaçadas os desafios, sem medo de cara feia.


Todos conheciam o rapaz, filho de fazendeiro do lugar, respeitado e conceituado pela palavra dada. Naqueles tempos do século passado, nas pequenas localidades rurais, a palavra do indivíduo valia tanto quanto um documento assinado e o fio de bigode era selo de compromisso. Luizão honraria a tradição dos homens de “barba e bigode”, como seu pai, enfrentaria a mulher barbada.


No Domingo pela manhã, a movimentação nos guichês era de fazer rir à toa os donos do circo. Todos queriam ver a luta, ansiavam pela desforra. Em algazarra, faziam fila no guichê. Lotação esgotada, agora era esperar a hora do espectáculo.


Quando levantaram a lona, abrindo a entrada, o populacho aos tropeços e empurrões invadiu a arquibancada. No meio do público, vendedores de pipoca, pé-de-moleque, balas puxa-puxa e amendoim torrado, circulavam oferecendo a sua mercadoria. Na hora marcada o rufar dos tambores da banda anunciou o início do show, o mestre-de-cerimónias entrou e capitaneou as atracções. As piadas e brincadeiras do palhaço Paçoquinha, a corrida na corda bamba, os trapezistas,... era tudo o que o povo queria ver, após um ano de espera. Até que chegou o momento mais aguardado, quando o apresentador anunciou a mulher barbada. Enquanto os ajudantes rapidamente montavam o ringue, os palhaços distraíam a criançada com brigas e piadas improvisadas. Tudo armado, os contendores no picadeiro, o juiz no meio deles declarou o inicio da luta. A dança do acerca/recua era acompanhada pela plateia que apupava e gritava palavras de estimulo ao desafiado o tempo todo. Foi quando de repente Luizão atingido por um soco violento se viu no chão. O público emudeceu. Ainda zonzo, ao tentar se levantar, tornou a receber um chute no ombro que novamente o derrubou. Sentiu que tinha que revidar, pra valer, a mulher tinha força e ia desmoralizá-lo, a ele e a cidade inteira! Num salto emplacou os pés no peito enfaixado da criatura, que ofegante, caída, disse baixinho, para que não ouvissem:


- Vá com calma, assim alguém se machuca! Ela não sabia, mas Luizão era aluno de um judô, para conter a gratuita valentia...


O rapaz riu para si mesmo, a luta estava ganha. Daí em diante foi só brincadeira. Luizão fingia arrastar a mulher pelos cabelos, a bater-lhe com um imaginário tacape. Segurava-a pelas pernas, rodopiava-a pelo chão, não dava chance a que se levantasse, até que exausta pediu arrego. Grande e estrepitosa foi a vaia. Sob gritos de Brucutu e ovação geral, o juiz improvisado levantou o braço do desafiado e declarou-o vencedor. Estava salva a reputação dos homens do interior...


No dia seguinte, o circo levantou as lonas e partiu às pressas para outras plagas. Por alguns anos não mais apareceu. Luizão ganhou fama, passou a ser conhecido como Brucutu, esqueceram seu nome verdadeiro. No judô, não conseguiu chegar a faixa preta. Numa competição, foi derrotado por outro colega, um “japa”. Desistiu das lutas. Como o circo, um dia também partiu. A mando dos pais, foi para a capital estudar, lá deixou de ser homem das cavernas para se tornar doutor.


Anos mais tarde, quando voltou à terrinha para viver e clinicar, depois de vencer em outras bandas, o Dr. Luiz, ao ser apresentado a alguns amigos, numa reunião informal, perguntaram-lhe:


- O Sr. conheceu o Brucutu?


Com um sorriso maroto respondeu:


- Sim, mas ele ficou lá trás, nos tempos idos da minha adolescência, não volta mais!


 


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Maria Eduarda Fagundes


Uberaba, 07/10/14

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