A bem da Nação

BOLO DE CHOCOLATE

 


 


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Herdeira de enorme fortuna, a Senhora vivia habitualmente no seu palácio à beira Tejo, antigo convento templário, um pouco abaixo do Castelo de Almourol.


 


Rodeada pela família, era o centro a que todos se referiam e o apurado sentido de humor que cultivava incutia um ambiente tão agradável à vida dentro do palácio que era sempre com prazer que lá se entrava e com pena que de lá se saía.


 


Nós, as visitas, sentíamo-nos “em casa” e a maior parte das vezes as refeições eram servidas na casa de jantar anexa às «cozinhas dos frades», no piso térreo, pois era mais prático para a organização do serviço e havia uma enorme lareira que no Inverno aconchegava o ambiente. A sala de jantar nobre era no primeiro andar, tinha frescos nas paredes e no tecto emoldurados de talha dourada, era fria como gelo pois não tinha lareira e o serviço era feito por um elevador de pratos cuja base era longe da cozinha. Ou seja, não dava jeito nenhum e só era usada em ocasiões muito raras e de grande cerimónia.


 


Uma dessas raras ocasiões aconteceu durante a guerra civil espanhola em que lá apareceu um General nacionalista que tinha vindo a Portugal negociar qualquer coisa com o Doutor Salazar.


 


Recordemos que as comunicações quase não existiam nessas épocas e a viajem entre Madrid e Lisboa era feita por estradas tortuosas, sem estruturas de apoio aos viajantes e em tempo de guerra dá para imaginar o que seria a segurança... Assim foi que um membro do Governo português pediu ao Doutor, casado com a Senhora do palácio, que dessem guarida ao General e respectiva comitiva no regresso a Espanha.


 


O General fazia-se acompanhar de um Capitão, seu Ajudante-de-Campo e por dois soldados sendo um deles o motorista e o outro o trintanário.


 


Logo à chegada o General comportou-se como se os donos da casa estivessem a cumprir uma obrigação e não a fazer um favor. Tratando os companheiros com autêntico desdém, nunca fez a mais pequena tentativa para ser simpático com os anfitriões mas, mesmo assim, foi recebido com toda a deferência devida a quem vinha a pedido do Governo Português. Para além da recepção que lhe foi dada no salão nobre da casa, o jantar foi servido com todas as honras no tal aposento bonito mas incómodo e ao serão houve música de câmara para entreter um pouco Sua Excelência.


 


Os soldados foram servidos na cozinha, acompanhados pelo pessoal de serviço e foi-lhes destinado um quarto com as acomodações convenientes. Ao Capitão foi destinado um quarto ao lado de uma casa de banho e ao General coube uma «suite» no piso nobre equipada com as maiores comodidades existentes à época.


 


Mesmo assim, a arrogância, antipatia e sisudismo de Sua Excelência não desarmaram pelo que os donos da casa lá iam ensaiando conversas de conveniência de modo a amenizarem o ambiente e entreterem o tempo.


 


Da história não consta a ementa do jantar mas, sendo ali todos muito gulosos, apenas se sabe que à sobremesa foi servido um bolo de chocolate bem cremoso, quase mousse.


                       


Chegado o jantar ao fim, passaram os cavalheiros ao salão nobre onde deveriam esperar pelas Senhoras que tinham ido “retocar a maquilhagem” antes que a música começasse.


 


Vai daí, o General acende um puro sem querer saber se se podia ou não fumar. Apesar de se tratar de família militantemente não fumadora, logo apareceu um recipiente para improvisadamente servir de cinzeiro e tudo seguiu como se nada de anormal estivesse a acontecer.


 


A demora das Senhoras não foi especialmente notada mas veio a saber-se no dia seguinte que tinham sorrateiramente ido ao quarto do General, aberto a cama e colocado uma grande pasta de bolo de chocolate entre o colchão e o lençol de baixo na zona sub-lombar de quem se deitasse. O frio fez com que o bolo não derretesse a não ser com o calor do corpo do General pelo que este deve ter tido um ataque de mau feitio quando se sentiu todo empapado numa mistela que mais parecia outra coisa que não chocolate, típica de quem não tivesse aguentado alguma brusquidão dos movimentos peristálticos.


 


Na manhã seguinte bem andaram todos os da casa à procura dos espanhóis, desde soldados a General, mas como rasto deles só havia uma horrível papa castanha na cama do General.


 


Nos anos todos que se seguiram até à morte de Franco nunca mais se ouviu falar daquele General pelo que se presume que também o Movimiento não simpatizaria assim tanto com ele.


 


 


Henrique Salles da Fonseca

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