A bem da Nação

BILHETE DE IDENTIDADE

 


Luanda.png


 


Nasci branco de segunda


Calcinhas ou kaluanda


Nasci com os pés no mar


Em São Paulo de Loanda


 


Brinquei de pé descalço


Em poças de águas castanhas


Tive lagartas da caça


Não escapei às matacanhas


 


Comi manga sape-sape


Fruta-pinha tamarindo


Mamão a gente roubava


No quintal do velho Zindo


 


Pirolito que pega nos dentes


Baleizão, paracuca


E carrinhos de rolamentos


Numa corrida maluca


 


Tinha o Gelo, tinha a Biker


Miramar e Colonial


O Ferrovia, o Marítimo


Chás dançantes no Tropical


 


O N'Gola era só ritmo


O Liceu uma lenda


Kimuezo e Teta Lando


E os Jovens do Prenda


 


Havia velhas que fumavam


E velhos com ar de sábio


Enquanto novas músicas


Se insinuavam na rádio


 


"E a cidade é linda


É de bem-querer


A minha cidade é linda


Hei-de amá-la até morrer"


 


Quem não estudou no Salvador?


Quem não se lembra do Videira?


E das garinas de bata branca


Nossas colegas de carteira?


 


Depois havia o Kinaxixe


Futebol era nos Coqueiros


Havia praias, um mar quente


Savanas imensas, imbondeiros


 


E havia o som do vento


O cheiro da terra molhada


As chuvas arrasadoras


O fogo das queimadas


 


E havia todos os loucos


Do progresso e da guerra


A Joana Maluca, o Gasparito


A desgraça daquela terra


 


Nasci branco de segunda


Calcinha ou kaluanda


Nasci com os pés no mar


Em São Paulo de Loanda"


 


Nicolau Santos.png Nicolau Santos


(um kaluanda de verdade)

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