A bem da Nação

Augúrios

Não sei por que razão


Se foi Esopo inspirar,


Como exemplificação


De uma figura detestada,


Embora só pela deusa


Da grega sabedoria,


Na gralha de bico aberto,


A coaxar.


Afinal, é esse o seu falar


Embora sem grande acerto,


E com pouca harmonia.


Mas gostos são relativos


Não podemos generalizar


Nos motivos,


Valha-me a Virgem Maria.


Tanto mais,


Que gralhas há muitas,


Tal como os chapéus,


Ó céus. Leiamos então,


Com atenção


A fábula de Esopo


Na tradução:


«A gralha e o cão


Uma gralha que pretendia


A Atena, sacrificar,


Para esse banquete resolveu,


Com a necessária cortesia,


Um cão convidar Um dia. “


- Para que te metes em tanta despesa


Com esses sacrifícios, tão inúteis


Como fúteis?”


- O cão lhe perguntou, com esperteza,


Se não até com tristeza.


E continuou:


“Com efeito, a deusa tem por ti


Um ódio tão feroz


Que, como um algoz,


Aos teus áugures exclui


O crédito desejado.


“- Ora essa!” A gralha lhe respondeu


Com enfado:


“Por isso mesmo eu lhe sacrifico”,


Sei que ela me detesta


E espero apaziguá-la


Com a minha festa


A favor dela.”


De igual forma, muita gente


Pouco influente


Não hesita, por receios ancestrais,


Em cobrir de benefícios


Os seus inimigos figadais.»


Penso que a gralha pertencia


À lusofonia,


Mas não tenho a certeza.


Porque tal natureza


De cumular de benefícios


Os superiores,


Amigos ou inimigos,


Mesmo com sacrifícios,


Para obter deles favores,


É coisa antiga,


Própria da literatura


Que a imitou da Mãe Natura.


Não vou , pois, fazer fraca figura.


Não vou explorá-la.


Vou mesmo ignorá-la,


Essa coisa de servir


De sacrificar


De prendas trocar…


Não vá uma Atena segura


O crédito dos meus áugures banir.


 


Berta Brás

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