A bem da Nação

AS CONFERÊNCIAS DE LISBOA

SERÕES CULTURAIS DA


SOCIEDADE HÍPICA PORTUGUESA


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Rei D. Carlos 


(1863-1908)




O Partido Regenerador e o Partido Progressista, ambos monárquicos, alternavam na governação de Portugal sem que nenhum deles resolvesse os problemas estruturais que a Nação diagnosticava mas sobre cujas terapêuticas ninguém se entendia. Cada um dos Partidos apenas revelava saber governar quando estava na Oposição e quando estava fora do Governo distribuía entre os seus proeminentes membros os vários cargos bem remunerados de algumas ricas empresas monopolistas de cariz para-público, v.g. a Companhia dos Tabacos. Os problemas mais mediáticos tinham a ver com uma flagrante sensação de fraqueza de Portugal no contexto internacional. O Ultimatum pusera essa tónica em grande relevo fazendo surgir uma onda de nacionalismo que chamou a atenção para o atraso relativo em que o país se encontrava. O próprio Rei entendia que era necessário transformar em virtuoso o ciclo vicioso em que o Regime se encontrava. Mais: do descontentamento generalizado era o Partido Republicano Português quem mais dividendos extraía assim pondo o próprio Regime em causa. Ou seja, o Rei considerava que era necessário quebrar a rotina e que era urgente fazê-lo.


 


D. Carlos convidou então o Conselheiro João Ferreira Franco Pinto Castello Branco – que ficou na História conhecido por Conselheiro João Franco – a constituir Governo uma vez que este Senhor tinha criado o Partido Regenerador-Liberal (o chamado Partido Franquista) num processo a que hoje chamaríamos de spin-off do Partido Regenerador. Neste Partido João Franco reuniu aqueles que ele considerava a nata da sociedade portuguesa entre militares experientes e coroados de glória nas campanhas africanas e civis com provas dadas de grande sentido de Estado. Mas se o Partido Franquista começou por congregar uma elite notável, ao abrir Delegações locais um pouco por toda a parte (chegaram a ser 28), introduziu um elemento de destabilização no sistema até então instalado que ao todo e por atacado pouco mais longe alcançava do que as tertúlias lisboetas e um ou outro núcleo no Porto e em Coimbra mas todos de dimensão praticamente ínfima. Até então o povo não era tido nem achado na feitura da política nacional mas aquelas Delegações locais do franquismo chamaram a atenção popular para o arranjinho há muito cozinhado no Chiado.


 


Conselheiro João Franco


(1855-1929)


Ou seja, se João Franco tinha a oposição dos republicanos por uma questão de Regime, concitou igualmente o antagonismo daqueles, monárquicos, a quem estragou o dito arranjinho.


 


Para complicar o cenário, tanto republicanos como monárquicos eram atravessados por uma fronteira nítida entre moderados e radicais sendo que também a Maçonaria, a Igreja e a Carbonária disputavam lugares na cena global.


 


Tudo visto e ponderado, resultava um cenário muito alheado da ponderação, nada sereno e em tudo fazendo lembrar a expressão popular que reza que «em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão».


 


Destabilização de arranjinhos, perspectivas goradas, ânimos exacerbados e eis que D. Carlos é por todos apontado como o responsável dos problemas nacionais.


 


Avisado por inúmeras vezes de que algo de muito grave se preparava, o Rei não deu ouvidos a todos os verdadeiros amigos que lhe pediram para que não viesse a Lisboa naquele dia 1 de Fevereiro mas que, se o fizesse, que não seguisse numa carruagem aberta. A todos ignorou e quando o Dr. Ruy d'Andrade no dia 31 de Janeiro de 1908 foi de Stª Eulália, perto de Elvas, em galope desenfreado até Vila Viçosa para prevenir D. Carlos de que o assassínio estava previsto para o dia seguinte, o Rei respondeu-lhe de modo diversivo: - Oh Ruy! Já viste que bonito está hoje o dia?


 


Puro Sentido de Estado ou mero suicídio?


 


Passados 100 anos sobre o acontecimento, os enigmas que envolvem o regicídio são ainda tantos que a tinta continua a correr e o tema a apaixonar os portugueses que bem tentam descortinar um rumo para a situação por que Portugal atravessa de novo.


 


E porque este foi o tema do primeiro Serão Cultural da Sociedade Hípica Portuguesa, a sala de conferências encheu-se no dia 14 de Março de 2008 de uma assistência culta e muito motivada que não deu pelo tempo passar ao ouvir a interessantíssima exposição feita pelo


 Professor Doutor Mendo Castro Henriques.


 


Ao longo dos seus 98 anos de existência, a Sociedade Hípica Portuguesa tem sido palco de altos momentos desportivos mas este vem certamente juntar-se-lhe como um marco da mais elevada qualidade cultural e mesmo intelectual.


 


Lisboa, 15 de Março de 2008


 


Henrique Salles da Fonseca


 

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