SONETO
Não repararam nunca? Pela aldeia,
Nos fios telegráficos da estrada,
Cantam aves, desde que o Sol nada,
E, à noite, se faz sol a Lua Cheia.
No entanto, pelo arame que as tenteia,
Quanta tortura vai, numa ânsian abalada!
O Ministro que joga uma cartada,
Alma que, às vezes, d'Além-Mar anseia:
--Revolução? -- Inútil -- Cem feridos!
Setenta mortos. -- Beijo-te! -- Perdidos!
-- Enfim, feliz! --? --! -- Desesperado. -- Vem.
E as boas aves, bem se importam elas!
Continuam cantando, tagarelas:
Assim, António! deves ser também.
António Nobre, (Porto, 1867 -- 1900), formou-se em Ciências Políticas em Paris, contraiu a tuberculose pulmonar, nacionalista, pessimista
MEMÓRIA
"Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Aquele santo (que é velhinho e já corcova)
Uma vez, uma vez, uma linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua-nova,
Nasci eu... O velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: --"Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já..." E ainda não voltou!
António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
"Só" é o poeta-nato, o lua, o santo, a cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever...
Lede-o e vereis surgir do poente as idas mágicas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
SÓ
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MAS, TENDE CAUTELA, NÃO VOS FAÇA MAL... QUE É O LIVRO MAIS TRISTE QUE HÁ EM PORTUGAL!
Joaquim Reis