A bem da Nação

ANDANDO E LEMBRANDO

 


 


Empregada doméstica.png


 


 


Andando eu pelo nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros à procura de um certo Cônsul Honorário acreditado em Lisboa, deparei-me na extensa lista que me foi presente com um Cavalheiro de apelido Cudell (que por acaso conheci pessoalmente nos idos dos estudos) e logo me lembrei duma história que se terá passado pelos inícios do séc. XX aqui nesta que então era capital de Império.


 


Tocam à porta da residência da Senhora Marquesa de... e a empregada doméstica (daquelas a que na época se chamava «criada de fora») vai atender e depara-se-lhe um Cavalheiro muito bem apresentado que pergunta se a Senhora Marquesa estava e, se sim, se a podia visitar. O diálogo terá sido mais ou menos assim:


- A Senhora Marquesa poderá receber-me?


- Um momento que eu vou perguntar. Quem devo anunciar?


- Olhe, diga-lhe que é o Cudell.


- É quem?


- O Cudell.


- Muito bem. Um momento. Faz favor de se sentar enquanto eu vou dizer à Senhora Marquesa.


E lá foi a empregada toda despachada para não fazer esperar o Cavalheiro...


- A Senhora Marquesa dá licença?


- Sim, que é?


- Está à porta um Senhor que pede para visitar a Senhora Marquesa.


- Sim, quem é?


E aqui a empregada embatuca e não profere palavra.


- Então, quem é que quer falar comigo?


Silêncio e um encolher de ombros de hesitação.


- Oh mulher, diz lá quem é que quer falar comigo!


- Bem, a Senhora Marquesa não se zangue comigo.


- Eu zangar-me contigo por causa do homem que quer falar comigo, porquê?


- É que o Senhor disse...


- Disse o quê, mulher de Deus que não desembuchas.


- É que o Cavalheiro disse que é o cu da Senhora.


- O quê? Ah mulher de Deus! Queres tu dizer que é o Senhor Dr. Cudell?


- Sim, minha Senhora, é isso. Mas a Senhora Marquesa não se zangue comigo, está bem?


- Claro que não me zango contigo, mulher! Manda lá entrar o Senhor Dr. Cudell e vai com Deus mais as tuas trapalhadas.


 


Conta-se... conta-se tanta coisa que alguma há-de ser verdade.


 


É que nem todos os portugueses lidam facilmente com a língua alemã.


 


Lisboa, Setembro de 2015


 


C-Henrique em Pnhom Penh.jpg


Henrique Salles da Fonseca

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