Próximo destino, Braunschweig. Seriam 300 quilómetros no sentido Sul passando novamente por Hamburgo e por Hannover, a dos nossos cavalos mas também sede dos pneus alemães e da Casa estaminal da «Senhora de Hannover» que, entretanto, se senta no trono da Velha Albion.
Sim, a Casa de Hannover é de uma família nobre alemã que foi escolhida para dar uma nova dinastia à Grã-Bretanha em 1714[i] e, daí, eu chamar à Rainha Isabel II de Inglaterra «a Senhora de Hannover». E, já não ela mas um seu antepassado não muito longínquo, Duque de Braunschweig.
Fomos à sede desse ex-Ducado visitar uma antiga professora de alemão dos meus companheiros de viagem que nos conseguiu receber para jantar no seu «vasto» apartamento T1. Mas íamos lá também porque era ali que começava o corredor de passagem terrestre através da Alemanha soviética em direcção a Berlim. E, dando uma curta volta de carro, fomos ao longo da medonha «cortina de ferro» que, vista do nosso lado, era um muro em placas de cimento com torres de vigia espaçadas de modo a que cada torre pudesse cobrir de metralha a distância até à torre seguinte. E eu pensei como é que aqueles Vopo’s (Volks Polzei - «Polícia do Povo» ou «Polícia Popular»), vendo-nos do lado de cá tão satisfeitos da vida, não aspirariam o mesmo para si próprios. Foi então que comecei a imaginar o significado de «lavagem ao cérebro». Com base nesta deturpação do sentido da vida, olhei para aquele muro, para aquelas torres, seus ninhos de metralhadoras e seus fanatizados polícias e temi que algum deles tivesse um inesperado espasmo neuro-muscular no respectivo dedo a postos no gatilho. Eu não sabia – e continuo sem saber – quais as instruções que aqueles desgraçados tinham – se era para estarem sempre com o dedo a postos no gatilho durante todo o tempo de serviço ou se podiam descansar de tantos em tantos minutos. É que se as ordens fossem de engatilharem permanentemente, os tais espasmos poderiam acontecer inesperadamente com as mais trágicas consequências. Nada aconteceu, passámos por dentro do campo de fogo sem ocorrências de nota, os Vopo’s deviam ter entrado ao serviço pouco tempo antes.
Vamos, não vamos…?
Vamos, não vamos…?
Fomos!
Na manhã seguinte metemo-nos no «pão de forma» quando o Sol se levantou e pedimos entrada no corredor para Berlim. Depois de muito morosas verificações, lá fomos finalmente autorizados a passar. Esperavam-nos 230 quilómetros por uma autoestrada hitleriana com registo de hora de entrada e marcação de hora máxima de chegada. Vedações laterais ao longo de toda a autoestrada não fosse – segundo a propaganda do Camarada Walter Ulbricht - algum ocidental tentar-se pelo «paraíso» socialista e entrar clandestinamente por ali dentro… Mas as tentações eram refreadas pelo que pudemos ver no trabalho rural. Afinal, as vedações eram para os refrear a eles e não a nós. Sim, estou a ser irónico porque seria de muito mau gosto tentar fazer humor com aqueles cenários de escravatura. E isto passava-se em 1961, não em 1691. Camaradas, não tentem fazer dislexia à minha frente para não passarem por um vexame.
Vimos Magdeburgo à distância e imaginámos Potsdam já quase no destino. Verificada a hora, passámos em liberdade para Berlim livre. Antes de tudo o mais, procurar um parque de campismo. Ficámos num que não era muito afastado do Tiergarten que é como se diz «jardim zoológico» em alemão.
(continua)
Maio de 2020
Henrique Salles da Fonseca
[i] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_de_Han%C3%B4ver