A bem da Nação

AMBLIOPIA - 3

 


 


Foi Karl Popper, o filósofo das Ciências do séc. XX, que me ensinou algumas coisas sobre música. Por exemplo:


Contraponto – trata-se duma melodia secundária que, em harmonia com a principal, lhe produz um complemento agradável ao ouvinte;


Baixo contínuo – trata-se de acompanhamento harmónico relativamente à melodia principal (e única) cujo objectivo é o de dar volume sonoro ao conjunto da obra (sem que tenha de constituir melodia).


Mas há mais: o ritmo de tudo isto tem que ser o mesmo.


                                      ***


Foi na minha juventude que alguém me ofereceu um busto miniatura de Robert Schumann e logo a minha mãe me disse que as obras tardias dele revelavam os problemas mentais de que acabou por ser vítima. Guardei a informação e deixei passar sessenta anos, até que há dias me ofereceram a integral das suas sinfonias.


Trata-se de quatro sinfonias que nos são apresentadas pela ordem de edição, não pela cronologia da composição. Assim, a que nos é apresentada como sendo a Nº 1 é mesmo a primeira, mas já a Nº 2 corresponde á terceira, a Nº 3 é a quarta e a que nos é apresentada como sendo a Nº 4, é afinal a segunda.


Foi, portanto, com especial atenção que ouvi a mais tardia (Nº 3= a 4ª) para constatar, logo nos primeiros compassos, do primeiro andamento, que metade da orquestra executa a melodia principal num determinado ritmo e que a outra metade cumpre um ritmo completamente desgarrado.


A pouco e pouco, as duas metades da orquestra adoptam o mesmo ritmo, tudo entra nos conformes e pode-se dizer que a obra acaba em beleza.


A minha mãe tinha razão e Karl Popper também.


Estou a lembrar-me de Clara, a mulher do compositor, ela também compositora, que deve ter tido uma vida bem difícil e cuja obra vou agora procurar. Depois conto…


NOTA FINAL – à 4ª vez que ouvi, a sensação de desconforto foi grandemente reduzida e creio que posso cingir o problema às entradas dos tímbalos que poderiam ser mais discretas ou mais oportunas; mas ao longo de toda a obra se nota algo que «não bate» completamente certo.


Maio de 2019


                             Henrique Salles da Fonseca

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