Até aqui contei sobre a situação política que encontrei quando cheguei ao Brasil (1º texto desta série), sobre algumas particularidades físicas e onomásticas do Amazonas (2º texto), do absurdo de certas obras públicas (3º texto), de alguma cultura popular amazónica (4º texto), da vida dos caboclos (5º texto) e da bicharada (6º texto). Resta agora contar sobre tudo o resto.
Aqui vai...
No dia de intervalo entre os dois cruzeiros ou, se se quiser, entre as duas partes do nosso cruzeiro, com o navio acostado em Manaus, para não ficarmos um dia sem nada que fazer, fizemos (extra-cruzeiro) um passeio de barco visitando uma aldeia índia situada a mais de duas horas de lancha rápida a montante no Negro.
Trata-se de uma aldeia construída recentemente para albergar um pequeno grupo de famílias índias que decidiram emigrar para sul, vindos da «floresta lá de cima» que, traduzindo por miúdos, significa a região fronteiriça com a Venezuela e a Colômbia, lá «onde Judas perdeu as botas» e é o local dos maiores segredos, de guerras secretas, de pistas clandestinas para aviões de contrabando, lá onde reina a insegurança de quem quer ter vida tranquila. E por isso estes índios puseram-se nas pirogas e desceram o Negro até que a FUNAI – Fundação Nacional do Índio[1] as albergou e lhes proporcionou um modo de vida cantando e dançando para turistas. E os jovens vão à escola onde aprendem o curriculum geral brasileiro e, em paralelo, a sua própria cultura de modo a que não se sintam marginalizados pela cultura nacional e não percam os laços com a sua raiz nativa.
Cantam e dançam para nos mostrarem o seu típico e no final vêm buscar-nos para dançarmos com eles. Felizmente escolheram uma dança muito fácil e nenhum de nós fez figura de grande imbecil pé de chumbo. Só que como fomos todos dançar (até mesmo os coxos), não ficou ninguém para filmar e não há testemunho da nossa «brilhantíssima» participação. Eu dancei com uma velha e com uma nova.
E na zona das casas (a das «ocas») lá estava a electricidade do programa lulista «Electricidade para todos» ficando o tipicismo absoluto limitado à zona dos espectáculos.
Uma particularidade: estes índios já escolhem com quem querem casar e nem o cacique nem os pais metem mais o bedelho no processo.
E por aquelas partes já ninguém exibe as vergonhas, todos usam cuecas
Regressados ao navio e retomado o cruzeiro, visitámos (bem menos afastados da civilização) outra aldeia índia. E aqui não há fingimentos pois ninguém pretende fazer de conta que vive à moda antiga: cultivam os seus valores tradicionais mas abraçam totalmente a civilização moderna sem complexos de inferioridade.
Professor primário, alguns alunos e familiares
Pelo contrário, estão empenhados em contrariar o mais que caduco slogan que afirmava que o índio padecia de capito diminutia e não era capaz de absorver a cultura dos brasileiros de primeira. O exemplo foi dado pelo próprio cacique ao fazer um curso de formação e ser oficialmente reconhecido como agente de saúde. Seguiu-se um outro elemento da aldeia que decidiu ser professor do ensino secundário levando à instalação duma escola oficial na própria aldeia evitando o desenraizamento de quem quisesse estudar para além do ensino elementar.
O professor que fundou a escola secundária
Escola esta que tem aulas de informática; aldeia esta em que se faz selecção e valorização de resíduos. O desafio que agora se coloca é o do futuro dos jovens que decidem seguir para o ensino superior. E a questão é: será que depois de licenciados regressam às aldeias para ajudarem a sua gente ou será que só voltam durante as férias? Aconteça o que futuramente acontecer, uma coisa é certa: já não haverá grandes pretextos para os índios instruídos se perderem na selva urbana encharcados em álcool ou noutros vícios. O índio tem as mesmas capacidades que qualquer outra pessoa e definitivamente tem o direito (e a obrigação) de se dar ao respeito e ser útil à Nação.
No próximo texto vou referir um pouco da economia seringueira.
Abril de 2016
Henrique Salles da Fonseca



