O golfinho amazónico tem características diferentes das dos que conhecemos na Europa. Mas em vez de estar para aqui a escrever sobre essas diferenças, mais vale publicar imagens que falem por si e a quem quiser saber mais sugiro que procure na Wikipédia.
Roaz corvineiro (de água salgada)
Boto cor-de-rosa (de água doce)
Para nós, leigos na matéria, as grandes diferenças são no focinho e na cor. Mas o amazónico também nasce cinzento e vai mudando de cor à medida que envelhece.
Mas se os dos mares inspiraram a imaginação humana com as histórias dramáticas do desaparecimento de marinheiros encantados pelo canto das sereias, os amazónicos arcam com a responsabilidade de ocorrências de cariz bem diferente – não relativas ao desaparecimento de ninguém mas sim ao aparecimento de mais alguém.
Durante as festas em honra de S. João, Stº Antonio e S. Pedro, a população ribeirinha – a dos caboclos – celebra com bailes, fogos de artifício, fogueiras e, muito importante, com fartos comes e bebes. Reza a lenda que é nessas alturas (sobretudo nas dos «bebes») que o boto cor-de-rosa sai do rio transformado num jovem elegante e belo, jovial e bom dançarino, muito bem vestido de branco e com chapéu. Esse desconhecido e atraente rapaz conquista com facilidade a mais bela e desacompanhada jovem que se cruze no seu caminho, dança com ela a noite toda, encanta-a e engravida-a.
Afinal, a culpa é do boto. E isto é sendo cor-de-rosa. Imagine-se o que seria se tivesse cor mais viril...
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Mas as imensas águas amazónicas possuem uma outra maravilha da Natureza, o pirarucu, tema importante da mitologia indígena.
Reza a lenda que Pirarucu é o disformismo de um índio que pertencia à tribo dos Uaiás. Bravo guerreiro, tinha, contudo, mau carácter, apesar de ser filho de Pindarô, bom homem e cacique respeitado da tribo.
Para além de ter por costume insultar os deuses, era vaidoso, egoísta e excessivamente orgulhoso do poder que se atribuía por ser filho do chefe. Certa vez, enquanto o pai fazia uma visita amigável a tribos vizinhas, Pirarucu aproveitou-se da ocasião para tomar como reféns alguns membros de uma das aldeias visitadas e executou-os sem qualquer motivo.
Tupã, o deus dos deuses, puniu então Pirarucu e, lançando-lhe o mais poderoso relâmpago, chamou a deusa das torrentes a quem ordenou que provocasse as mais fortes torrentes de chuva sobre Pirarucu que estava então a pescar na companhia de outros índios nas margens do Tocantins.
O fogo de Tupã foi visto por toda a floresta. Quando Pirarucu deu conta do fogo e das ondas, fingiu ignorar tudo com uma risada e palavras de desprezo mas, contudo, ainda tentou escapar. Só que, enquanto corria por entre as árvores da floresta, um relâmpago fulminante acertou-lhe no coração. Mas mesmo assim ainda se recusou a pedir perdão.
Todos aqueles que se encontravam por ali correram assustados para a selva, enquanto o corpo de Pirarucu, ainda vivo, foi levado para as profundezas do rio e transformado num peixe gigante e escuro. Pirarucu desapareceu nas águas, nunca mais voltou à terra firme mas por um longo tempo foi o terror da região.
Esta espécie de peixe, o Arapaima gigas, possui características muito particulares pois tem grande porte (pode crescer até aos três metros e pesar cerca de 250 kgs), tem escamas tão grandes que delas se pode fazer porta-chaves e, mais importante, possui dois aparelhos respiratórios – as guelras para a respiração aquática e a bexiga-natatória modificada especializada para funcionar como pulmão.
À semelhança dos golfinhos, também o pirarucu vai adquirindo a cor rosada à medida que envelhece. Está visto que tudo depende de algum alimento existente nas águas amazónicas pois os humanos, as vacas, os macacos e as preguiças da região, vivendo em terra firme, não tendem para a cor rosa.
E aqui entra a minha incongruência total pois fez-me muita impressão ver um bicharoco destes em vias de esfola (nem sequer publico as fotos que me deram dessa operação) mas, depois de cozinhado, gostei imenso dele no prato ao jantar.
(continua)
Abril de 2016
Henrique Salles da Fonseca



