A bem da Nação

ALEXANDRE CASTRO CALDAS – Neurologista – 2

 


 


Aos 65 anos, neurologista rejeita uma idade para a reforma e defende mais oportunidades para idosos terem os seus projectos


Pode haver consequências a prazo, mais demência?


Não creio. A demência é uma doença que havemos de perceber porque é que acontece e há linhas de investigação que sugerem que seja do tipo viral, um pouco como os priões da doença das vacas loucas. Mas se existem doenças como esta, que ainda não percebemos bem, há perda de competências cognitivas porque a pessoa se senta à frente da televisão depois de se reformar, isso é que é prejudicial. Isso não é doença. É a diferença entre a demência e o mau envelhecimento.


Como vê a discussão em torno da idade de reforma?


Acho disparatado haver uma idade até porque já passei do prazo. Há idades em que as pessoas são capazes de fazer determinadas coisas e outras em que já não são. Há pessoas que querem deixar de trabalhar em função do tipo de função que têm e do contrato e outras que querem continuar. Cada vez mais temos pessoas na idade da reforma fantásticas e a sociedade vai ter de aproveitá-las forçosamente.


Como reformava o sistema?


Devia haver um programa de segunda leva. Há imensas pessoas que passaram a vida toda a dizer que se fossem elas a mandar faziam assim e assado. Deviam ter essa oportunidade. Devia haver condições para os mais velhos lançarem um projecto, começarem um negócio, passarem a trabalhar por conta própria. O problema é que se eu chegar ao banco com 65 anos a pedir dinheiro ninguém mo dá. Devíamos por outro lado estimular o trabalho dos avós com os netos. A brincadeira dos netos pega-se às pessoas de idade e é uma actividade exploratória que faz bem aos velhos pela razão que falava de manter o cérebro a funcionar. Já as crianças pela transmissão de histórias e experiência aprendem formas de arquivar informação.


Fala-se excessivamente do problema dos mais jovens e das crianças?


Tende-se a olhar para o envelhecimento como uma curva descendente quando não é. A vida é uma linha paralela à terra e acontecem coisas diferentes em todas as fases. Há um cérebro para todas as idades como é o nome do curso. É evidente que não vou saltar ao eixo com 90 anos, existe uma perspectiva em relação ao comportamento em função da idade. Mas não podemos com base nisso cortar a oportunidade de as pessoas viverem as competências que têm. Infelizmente, é isso que acontece, a sociedade tira as oportunidades às pessoas idosas. Impõe barreiras de vida, oferece-lhes cidades agressivas, tenta escondê-las.


O que é uma cidade agressiva para velhos?


É Lisboa. Meta uma pessoa de 80 anos a andar em passeios com pedras soltas, cocós de cães e ervinhas a crescer e veja o que acontece.


Dantes os passeios estavam direitinhos e havia pessoas que raspavam a lioz para não ficar escorregadia. Hoje as pessoas vêem-se aflitas. Há um momento da vida em que as pessoas dizem não vou saltar para este degrau porque dá mau resultado, vai acontecer-nos a todos porque o aparelho osteoarticular perde a sua elasticidade. As pessoas mais velhas recebem menos informação sensorial nas pontas dos pés e têm de andar com mais cuidado, o tempo de reacção é muito mais lento. As cidades têm de se adaptar a isto.


 


(continua)

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