Abastança para todos, JÁ! – eis o slogan de todos os Partidos políticos na oposição sobretudo quando em campanha eleitoral. Contudo, é frequente essas promessas não terem qualquer viabilidade e não passarem de falácias. Daqui resulta a inconsequência em que os Partidos caem quando chegam ao Poder com o frequente incumprimento das promessas eleitorais. Mas o que importa é alcançar o Poder e tudo o mais é minudência porque o objectivo foi alcançado e a ele tudo é devido, mesmo à custa da Ética.
Só que ao longo de decénios essas falácias deixaram rasto e despertaram no consumidor vontades anteriormente contidas. O bem-estar deixou de ser um objectivo, passou a ser um direito. Assim nasceu o intento de satisfação imediata de todas as vontades, quiçá de todos os caprichos. E como as poupanças eram insuficientes ou mesmo inexistentes para permitirem tais "luxos", o recurso ao crédito foi incentivado como forma de estímulo da Economia. O crédito deixou de ser uma conquista pela via do «bom-nome na praça» para passar a ser um «produto» oferecido a qualquer um, cidadão impoluto ou poluído. Assim foi que o consumo entrou na moda. Contudo, em Portugal não fez disparar a produção interna de bens transaccionáveis: fomentou as importações e provocou o descalabro na Balança de Transacções Correntes. Este descalabro só foi disfarçado pela adesão ao Euro e tudo se manteve em aparente normalidade com a especulação bolsista a ditar tudo e a desviar verbas do crédito à produção. Mas não disfarçou o endividamento dos Bancos nacionais perante os homólogos estrangeiros e quando a crise estalou nas «praças internacionais», as repercussões internas não poderiam demorar. E quando tardiamente se descobriu – primeiro nos EUA e depois na Europa incluindo Portugal – que a prudência fora traída e a confiança no sistema podia ser posta em causa, saltaram para a ribalta soluções que provocarão muito significativas tensões inflacionistas pela injecção nos circuitos financeiros de grandes massas monetárias oriundas das reservas se não mesmo das rotativas.
O modelo de desenvolvimento especulativo global avisou ter chegado à exaustão. Está na hora de voltarmos à realidade de que globalmente nos afastámos. Não se fala ainda no regresso a um padrão físico mas não se estranhe que, após tanta volatilidade, alguém comece a referir a necessidade de regresso a um padrão qualquer como o ouro, por exemplo.
E por cá? O nosso modelo de desenvolvimento teve o mérito de democratizar o acesso à habitação própria a tal ponto que Portugal se encontra nos mais altos níveis do ranking mundial desse indicador. Mais: já dá nas vistas no indicador mundial da segunda habitação, a de lazer. E se esta política foi estrutural até no combate político contra soluções colectivistas revolucionárias, os níveis já alcançados evidenciam que esse não pode continuar a ser o grande instrumento do nosso futuro desenvolvimento.
Está na hora de privilegiarmos a produção de bens transaccionáveis e deixarmos – também nós, portugueses – de viver de aparências tudo importando da China. E se não faz sentido regressarmos a um modelo puramente mercantilista como o que vigorou até 1974, teremos certamente que reduzir drasticamente o nível de reivindicações e de recurso ao suporte público quer como entidade empregadora quer como entidade gastadora. O contribuinte português – individual e colectivo – está fiscalmente exaurido e há que enveredar por outras soluções. O caminho da contenção da despesa pública corrente ainda foi ensaiada até meados de 2008 mas a aproximação da campanha eleitoral e o advento da crise financeira mundial deram ao Governo todos os pretextos para regressar a políticas diferentes do equilíbrio por que tanto esforço chegou a ser dispendido. Em vão, afinal.

Pandora abre a sua caixa...
Daqui resulta que 2009 deveria ser o ano de nos entendermos quanto ao rumo estrutural a seguir aproveitando o facto de se tratar de ano eleitoral. Nada melhor para que estas questões entrassem na discussão corrente oferecendo ao eleitor as opções que em Democracia se colocam.
Sim, isto era o tipo de cenário que deveria prevalecer mas temo que seja bem diferente e que se enverede pela demagogia eleitoralista tendo como pano de fundo um desbragamento da despesa pública fundada na necessidade de «combater a crise», novo pretexto para todas as futuras vilanias.
Lisboa, Dezembro de 2008