A vida e a morte -1916 (Gustav Klimt)
Hoje, dia 2 de novembro, a Igreja católica celebra o dia de finados, quando os cemitérios se enchem de pessoas que visitam os túmulos dos seus parentes e amigos já falecidos, num hábito secular de orar, falar-lhes, levar-lhes flores e velas, recordando que um dia estarão novamente juntos.
Embora o animal seja capaz de pressentir a morte, como é possível constatar nos corredores dos abatedouros, o homem é o único ser que sabe que um dia vai morrer. Essa preocupação humana é verificada desde os primórdios das civilizações, nos rituais e tratamentos que davam aos mortos.
Apesar de toda evolução da nossa cultura ocidental, a morte ainda é encarada com o mesmo temor dos tempos antigos. Ela é vista como um mal a ser combatido, pois representa o fim de tudo, quando temos que deixar os nossos bens e queridos. Desde pequenos somos afastados da sua presença, quando evitam que as crianças vejam os defuntos e cortejos fúnebres. Às perguntas sobre os ausentes a explicação é quase sempre a mesma, que foram para junto do Papai do Céu, dando a percepção que Ele tira definitivamente aqueles que amamos, associando assim Deus e a religião a algo a ser temido. Sob esse aspecto os espíritas têm uma interpretação mais reconfortante. Menos apegados aos bens materiais, vêem a vida como uma possibilidade renovada de retornos terrenos na busca do melhoramento espiritual humano.
Como uma constante ameaça, morrer é a ideia fatídica que persegue o homem, principalmente em idade mais avançada, quando diminui a perspectiva de vida para aqueles que não realizaram seus sonhos ou para aqueles que deixam tarefas e projectos inacabados.
A morte deveria ser entendida como a meta final da existência no caminho do aperfeiçoamento humano, pois a evolução é uma sucessão de metas bem cumpridas. Não importa se vivemos muito ou pouco tempo, deveria importar o que fizemos da vida. Felizes são aqueles que souberam fazer valer cada dia, que se alegraram com os bons momentos e choraram com os tristes. Esses se prepararam para aceitar a morte como o descanso final de uma jornada bem vivida. Até a Igreja ensina que apesar de sermos de Deus, para Ele só voltaremos se não negligenciarmos nossos deveres terrenos.
Diferentemente dos tempos atrás quando as pessoas morriam em casa, nos seus leitos, cercadas dos seus familiares e entes queridos, hoje a morte nos encontra nos hospitais, quando somos atendidos nos quadros agudos de alguma patologia, isolados dos parentes, cercados de aparelhos e gente desconhecida que nos trata de uma forma profissional e fria. A morte nesses lugares é uma constatação da humana incompetência em evitá-la, coisa que faz com que tentem de uma forma antinatural desqualificá-la, mantendo o paciente artificialmente vivo com medicações e procedimentos, prolongando muitas vezes o sofrimento do moribundo e da família.
Toda a mudança é dolorosa, o momento do nascimento, o da morte, mas como tudo, passa. Quando a morte é anunciada, através de um facto definitivo, e não estamos preparados, o que ocorre é que na grande maioria das vezes, passamos pelas fases que os psicólogos dizem ser de negação, revolta, barganha, interiorização e finalmente a fase de aceitação e paz, isenta de sentimentos. Nessa ocasião a presença acalentadora é mais importante para o moribundo que a comunicação verbal. O silêncio é a demonstração mais sentida e respeitosa àquele ser que se entrega ao Pai.
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 02/11/ 08