A bem da Nação

A QUEDA DE UM MITO

 


 


Como diria Monsieur de la Palisse, comecemos pelo princípio, ou seja, pela história do brado “AQUA ALLE FUNNI!!!” que ao longo dos tempos se transformou num grito de revolta contra o poder instituído.


 


Ao fiel peregrino ou ao curioso turista, impossível é passar despercebida a presença, bem no centro da Praça de São Pedro, do esguio obelisco encimado por uma cruz de bronze na qual se guarda, como a abençoar o mundo, um fragmento do Santo Lenho de Nosso Senhor Jesus Cristo.


 


Modelado há cerca de 4 milénios em um só bloco de pedra vermelha de Assuão, foi ele transportado de Alexandria para Roma no ano 37 por ordem do imperador Calígula. Estava destinado a ornar a espinha ou eixo central do Circo do Vaticano, cuja construção, começada por esse Imperador, seria finalizada por Nero.


 


Foi nesse estádio, hoje desaparecido, situado na lateral esquerda da actual Basílica vaticana, que numerosos cristãos, entre os quais São Pedro, receberam a palma do martírio, tendo o ancestral monólito por muda testemunha dos seus suplícios.


 


Passaram-se os anos e o circo foi abandonado e transformado em cemitério. O obelisco, porém, manteve-se inamovível, indicando o lugar onde o primeiro Papa oferecera sua vida por Cristo. E assim permaneceu por quinze séculos, até que, em 1586, Sisto V decidiu transladá-lo para a sua actual posição, frente à fachada principal da Basílica de São Pedro. Tarefa nada fácil pois, embora ambos os locais distem apenas algumas centenas de metros, as proporções do monólito são monumentais: mede quase 25 metros de comprimento, descontados a base e a cruz e ultrapassa as 350 toneladas de peso.


 


O planeamento e execução da colossal empresa ficaram a cargo do arquitecto Doménico Fontana, quem, após gastar alguns meses a fazer cálculos e experiências, fabricando instrumentos e maquinarias, deu início às operações com a ajuda de 900 homens, 140 cavalos, uma infinidade de roldanas e centenas de metros de corda.


 


No dia determinado para reerguer na Praça de São Pedro o grande bloco de pedra, 10 de Setembro de 1586, os habitantes de Roma acorreram em massa para presenciar essa façanha de Engenharia. Visando evitar vozearias e agitações prejudiciais às delicadas manobras, as Autoridades impuseram a todos, espectadores e obreiros, a proibição de pronunciar qualquer palavra... sob pena de morte!


 


Doménico Fontana, o único autorizado a falar, deu ordem para pôr em acção a complexa aparelhagem de andaimes, cordas e roldanas. Ouviam-se apenas os gemidos de esforço dos trabalhadores, o relinchar dos cavalos, o tamborilar das patas sobre o solo e o ranger das cordas esticadas.


 


Vagarosa e solenemente, ia-se erguendo o obelisco... Mas, a certa altura, um preocupante fumo começou a desprender-se das cordas de cânhamo, aquecidas pelo esforço a que estavam a ser submetidas. Algumas já estavam prestes a romperem-se tornando iminente o desastre. Embora todos sentissem o perigo, ninguém pronunciava palavra temendo a sentença de morte.


 


Nesse momento de suprema aflição, um dos assistentes, o Capitão Benedetto Bresca, desafiando temerariamente a pena capital, pôs-se a gritar com possante voz: "Acqua alle funni! – Água nas cordas!". Marinheiro experimentado, sabia que o cânhamo enrija e contrai ao ser molhado e esse era o único meio de impedir a queda do monólito.


 


Enquanto a guarda prendia o Capitão Bresca, Doménico Fontana bradava ordens para lançar imediatamente água nas cordas, que logo recuperaram a resistência. E o obelisco, para alegria dos romanos, endireitou-se sobre a base coroando com êxito os meses de planeamento e esforços do arquitecto.


 


Obelisco da Praça de São Pedro.jpg


 


No meio da exultação geral, o Capitão Bresca compareceu diante do Papa, não para receber a sentença de morte, mas sim profundas manifestações de agradecimento. Com efeito, Sisto V, já informado do ocorrido, fez questão de o recompensar pela ousadia e pela oportunidade da advertência.


 


Como prémio à nobre e intrépida atitude, o Papa deu-lhe o direito de hastear no seu navio a bandeira pontifícia. Além disso, concedeu à sua família e à sua cidade natal, Bordighera, o privilégio de fornecer, de modo exclusivo, as palmas para a celebração do Domingo de Ramos na Basílica do Vaticano, tradição que, 425 anos depois, ainda se conserva.


 


Marcos Enoch Silva António


 


In http://www.arautos.org/imprimir/30489.html


 


* * *


 


Conta-se que o rei D. José também bradou «ÁGUA NAS CORDAS!!!» aquando do levantamento das colunas do Arco da Rua Augusta cujas cordas estariam também a fumegar.


 


Acontece que D. José viveu de 1714 a 1777 e foi Rei a partir de 1750 tendo-se distinguido pelo tremor de terra em 1755, por ter matado os Távoras em 1758 e expulsado os jesuítas em 1759, o mesmo ano em que mandou projectar o Arco da Rua Augusta cujas colunas foram erguidas em 1815, “só” 38 anos depois da sua morte.


 


HSF-Construção Arco Rua Augusta (1820)


 


Reconheço que seria curioso ter o nosso Rei a bradar como um Capitão que ficou na História pelo seu acto verdadeiramente nobre mas o grito do nosso Rei só poderá ter acontecido noutra ocasião nada tendo a ver com o episódio que erradamente se refere.


 


E vendo bem as «coisas», como é que um Rei que se caracterizou pela concentração do poder régio, poderia bradar de um modo que se confundiria com a afronta ao poder que ele próprio personificava? Só mesmo aquele Ministro da Agricultura que há alguns anos, bem perto do mesmo Arco da Rua Augusta, se pôs em posição de liderança duma manifestação... contra ele próprio. Bizarrias de quem quer dar nas vistas.


 


Mas se há que honrar os feitos memoráveis “dos nossos egrégios avós”, também há que corrigir a História nos seus erros mais grosseiros: o Rei D. José nada bradou aquando do levantamento das colunas do Arco da Rua Augusta porque já tinha morrido 38 anos antes.


 


14 de Abril de 2016


 


Porto Santo-MAI15-B.jpg


Henrique Salles da Fonseca

0