A bem da Nação

A PROVÍNCIA PLATINA - 8

                         O TROPEIRISMO NO BRASIL

 

 

      Final da parte 7: A estância e a charqueada impõem mudanças econômicas que abalam a sociedade sulina e introduz os mais profundos e novos traços no quadro social e político do Rio Grande.

     Na Campanha surge a hierarquia - o proprietário, o estancieiro, elemento dominante, aquele que recebeu a posse da terra com a distribuição das sesmarias e que estabelecia ou não a charqueada. Em torno do estancieiro girava a peonagem vivendo as diversas formas de remuneração de trabalho. Os peões dependiam do estancieiro e a ele deviam obediência motivada pela subordinação econômica já consolidada. A estância era o latifúndio, que exigia mando, o exercício da autoridade sobre os que dele dependiam ou a ele se ligavam dentro ou à margem da lei; por cobiça ou por instinto de conservação. A indisciplina da fase anterior impunha aos recentes proprietários a aplicação de métodos enérgicos. O estancieiro significou um condensador das queixas e aspirações dos grupos locais; o líder junto ao governo, armando-os muitas vezes, ora contra ou a favor do governo; para defesa sua, deles ou da Pátria. A sua influência resultava da soma das dedicações pessoais com que contava por simpatia, temor, relações de parentesco, gratidão ou por dependência de interesse.

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Parte 8: Nas lutas de fronteira em que o Brasil se envolveu, e em outras, o estancieiro desempenhou o papel do recrutador absoluto, quase sempre o chefe do seu bando que armava, montava, pagava e alimentava. A tropa era mais sua do que do país ou do Imperador. Com essas tropas e esses chefes o Império conseguiu efetivar a guerra contra Lopes, que presidia o Paraguai e a sua presença nos assuntos platinos. O fato da concessão das sesmarias extender-se até às pastagens entre o Ibicuí e Quaraí e além desse último rio, conferiu aos seus proprietários a condição e o direito de opinarem e lutarem todas as vezes em que se sentiam ameaçados, prejudicados ou ofendidos. Nessa base, além dos motivos comerciais, os brasileiros lutaram contra Artigas e depois incorporaram a Banda Oriental ao Império. O Brasil se envolveu a fundo nos problemas e choques da formação da Argentina. Esse envolvimento representava, no que diz respeito aos povoadores do Rio Grande, a luta pela posse das pastagens onde vivia o gado. Quando o Império foi forçado a aceitar a autonomia do Uruguai, inúmeras propriedades de brasileiros ficaram localizadas em território do novo país. Alguns proprietários possuíam, ao mesmo tempo, terras de um lado e de outro da nova fronteira e dos dois lados eram reconhecidos como autoridade temida.

 

  Quando os interesses coincidiam, os dos proprietários sulinos e os do Império, as forças regulares e irregulares lutavam juntas com predomínio destas. Havia entre elas contradições também. Nesse caso, deflagavam em lutas. A Farropilha foi a mais destacada. Emergiu, nesse conflito, o velho contraste marcado pelas reminicências heróicas da Campanha entre duas áreas de colonização. De um lado, os estancieiros à frente dos gaúchos pobres, que constituíam a sua tropa e a sua peonagem. A eles o governo devia grande quantidade de fornecimentos não pagos. A sua produção e o seu comércio tributava com rigor para auferir rendas que saíam da província. Do outro lado, os elementos dependentes da autoridade pública constituída pela população estável, pertencente à classe média das cidades, do litoral marítimo e lagunar e das regiões onde a colonização alemã começara a ser introduzida a partir de 1824. Este novo tipo de colonização conferiu traços de fixação e de estabilidade, que a Campanha desconhecia.


 Lenço decorado usado pelos Farroupilhas. Acervo do Museu Júlio de Castilhos Lenço usado pelos Farroupilhas - Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil




  A rebelião dos farrapos começou em Porto Alegre(atual capital do Rio Grande do Sul), mas teve na Campanha a sua base de sustentação. Lá encontrou os seus motivos, as suas idéias, os seus anseios, a sua sede política onde foram ditadas as suas leis. Assim, desenvolveu e viveu ao longo de dez anos na luta pela independência do novo país.

 

Continua

Belo Horizonte, 18 de março de 2008

Therezinha B. de Figueiredo

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