A bem da Nação

A PROVÍNCIA PLATINA - 6

O TROPEIRISMO NO BRASIL

 

   Final da parte 5: As lutas de 1801 definem a conquista da região missioneira, que fica incorporada novamente em área portuguesa até o corte do Uruguai. É o final do ciclo dos tropeiros, que vivera primeiro do gado em pé seguido da matança dos animais para obtenção do couro e sua comercialização.


   Na fase seguinte acontece a distribuição das sesmarias que possibilita o surgimento das estâncias. O gaúcho começa a valorizar a carne como alimento. Aprendem a salgá-la para durar mais tempo. Com a salga da carne, denominada charque, surgem os frigoríficos, que facilita o desenvolvimento da exportação daquele produto.


   No Rio Grande do Sul a cidade de Viamão, e Laguna em Santa Catarina foram os principais centros de comércio e formação de tropas com destino a São Paulo. Era o comércio paulista tropeiro. Com ele diversas cidades em São Paulo prosperaram. A principal foi Sorocaba com seu comércio de animais.


   O comércio de mulas e gado a partir do Rio Grande do Sul com os mercados distribuidores em São Paulo para abastecer as Minas Gerais, que durou um século e meio, promoveu a ocupação do interior, contribuiu para consolidar o domínio português fundando vilas e cidades. Integrou o sul a outras regiões da colônia.


   (...) Interesses mercantis visando a economia mineradora foram responsáveis por toda essa integração. A atividade dos tropeiros ganha importância à medida em que garante efetivar esses interesses e contribui para a formação do território português.

 

 

   A segunda parte desse ciclo de conquista é semelhante, em seu processo, ao desenvolvimento platino. Apresenta contradições, ímpeto de independência e os arremessos da gente da campanha.


   Na fase em que acontece a luta pela independência dos povos platinos, a situação tulmutuosa e confusa é alterada. Acentua-se a tendência para ocorrer a eliminação dos contrastes entre os dois tipos de sociedade. Cada um impõe à outra os seus padrões.


   Quando o choque entre os platinos ameaçam repercutir em território português, surge a necessidade de intervenção nesta luta e ao mesmo tempo a oportunidade de prevalecer a soberania lusa nas regiões onde o tratado de Santo Ildefonso a retirara. Por essa época o governo metropolitano já se encontrava instalado no Rio de Janeiro. Em 1811 Dom Diogo de Souza invade a Banda Oriental. Conduz as suas tropas ao conflito platino e afirma a intenção de posse e povoamento de toda a região de pastagens fronteiriça à Banda Oriental sempre contestada. Para concretizar o seu objetivo concede sesmarias onde a posse não estava ainda consolidada.


D. Diogo de Sousa, 1º conde de Rio Pardo

D. Diogo de Souza (1755-1829)

1º Conde de Rio Pardo

 

   O período posterior à autonomia dos povos platinos foi marcada pelos constantes choques militares na região da fronteira gerando instabilidade, recrutamento e correria pelas coxilhas. Como os dragões do Rio Pardo constituíram a mais importante força militar organizada para enfrentar os acontecimentos, esse período ficou conhecido como o ciclo dos dragões. Em conseqüência das condições ligadas às lutas militares a sociedade sulina passou por transformações de efeito duradouro e expressivo. O surgimento e o desenvolvimento da estância altera o contraste anterior entre a cidade e a campanha, entre a agricultura e o pastoreio.

 

   A agricultura entra em decadência causada pelas incertezas das lutas militares, da concorrência externa e da crise brasileira àquela época. O regime pastoril torna-se, pouco a pouco, absoluto, mas com características bem diversas das anteriores de simples aventura, pois articula-se em torno da estância que introduz na campanha a fixação, a hierarquia, a discriminação social, a mudança no processo de aproveitamento do gado a partir da introdução da charqueada.


   A charqueada adquire importância e peso no conjunto da economia a partir do momento em que se liga e até depende da concessão de sesmarias, da transformação que acontece quando os campos começam a ser apropriados. Até aí eles eram livres, mas a concessão de sesmarias na região de melhores pastagens confere o sentido de propriedade, que fundamenta o estabelecimento e o desenvolvimento da estância, característica econômica fundamental da região sul. A estância confere status, estabelece a sociedade de classe apenas esboçada e indefinida na fase anterior. A concessão da sesmaria representava positivo acesso na escala social. Equivalia a um título nobiliário, o ponto de partida para o predomínio econômico e político. Daí por diante as influências militares e a boa reputação nos combates só atuariam nos negócios públicos quando reunissem abundante posse de campo e de gado.

 

Continua

Campo Belo, 10 de janeiro de 2008


Therezinha B. de Figueiredo

  

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