A bem da Nação

A MOLDAGEM SOCIAL E O MEDO, SEGUNDO A FANTASIA

 


 


Tem La Fontaine a fábula de um camelo,


Que por ser desconhecido e nada belo


Meteu medo ao primeiro homem que o viu,


Que fugiu,


Mas o segundo dele já se aproximou


E o terceiro não só dele se aproximou


Como a arreata lhe lançou


Para que o transportasse


Nas longas caminhadas do deserto


Para as negociatas do seu prazer,


Ou as passeatas para as Pirâmides de Gizé,


Se não preferisse


Ir lá pelo seu pé,


Ou com outros meios de locomoção


Mais à mão.


Quer isto dizer


Que o tempo torna habitual e acessível


O que primeiro causara estranheza.


Mas o caso seguinte da mesma fábula


- Que ambos são, afinal, exemplos importantes,


Retirados das fábulas de Esopo


E fundidos por La Fontaine


Na mesma fábula “O camelo e os barcos flutuantes -


Mostra que também o encurtamento da distância


Dissipa a aparência


E relativiza a noção das coisas.


É o caso do objecto visto ao longe


Pelos homens de atalaia


Que lhe atribuem a importância,


Não do “Navio Fantasma”


Que trata de amores de tragédia,


Mas dum navio muito poderoso


Mais passível de comédia,


Se não acabar virado


No mar bravo.


Mas na continuação do seu aproximar,


Os homens da atalaia,


Vêem nele, sucessivamente,


Um navio incendiário,


Depois uma barca, um pacote, e, finalmente,


Apenas paus a boiar


No mar indiferente.


E La Fontaine de concluir:


 


Conheço muitos homens por esse mundo


A quem a fábula se pode aplicar:


De longe, uma extrema importância,


De perto, pura insignificância.


 


O visionarismo produz, de facto,


Destes efeitos,


Provocados por ilusão óptica,


Segundo a distância quilométrica.


Por isso se diz que tudo


É necessário relativizar,


Antes de concluir


Sobre a importância


Do que é muitas vezes


Só aparência.


Não falo, é claro,


Do visionarismo


Dos poetas


E de outros artistas similares


Que bebem os ares


Pela recriação


Segundo a sua imaginação,


Com mais ou menos metáfora,


Anáfora ou aliteração,


Hipérbole ou outro jeito,


Ou mesmo heróis e acções


De extraordinário efeito .


Os homens de quem fala a fábula


São vulgares


Como tu ou como eu


Vêem mais com o sentimento,


Aliado à frustração,


Pois se julgam mal também.


Por isso é que alguns casados


Que se acham malcasados


Pelo enfado do que têm,


Julgam que o que está à distância


Tem muito mais relevância


Para a sua vivência.


Daí a existência


De tanto divórcio actual,


E outras histórias complicadas


Saídas no jornal,


Deste nosso mundo paradoxal,


Em que o navio-cruzeiro da distância


Mais não é,


Junto às margens paradas,


Do que feixe de paus a boiar


No enxovalho de águas estagnadas.


 


 Berta Brás

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