Foi nos idos de 70 do século passado, o XX, que li um pequeno livro do americano Richard Bach (1936, Illinois, EUA -) que na tradução portuguesa se chamava “Fernão Capelo Gaivota”.
Oferecido por uma amiga na despedida de uma das minhas saídas para África, li-o duas vezes durante o voo de Lisboa a Luanda; não o li pela terceira de Luanda a Lourenço Marques. E se o li duas vezes, isso ficou a dever-se ao facto de me ter sido oferecido por quem foi e porque nele descobri o peso que ao longo da vida transportamos com tudo o que é prosaico e senti a leveza do que é profundo.
Os pássaros do livro – como os da Natureza – passam a vida a tratar de comer; o pássaro-herói admirava-se como os seus congéneres ignoravam tudo o que é superior, nomeadamente a delícia do voo, ou seja, o imaterial, a espiritualidade. E se os outros perseguiam pequenas partículas e insectos, ele conseguia imaginar-se em céus infinitos e desmaterializar-se de uma nuvem para outra apenas por força do pensamento. A imaterialidade deveria reinar sobre o mundano, o espírito deveria comandar tudo …
É claro que me lembrei sempre do famoso conselho que nos sugere “primum vivere, deinde philosophare” mas não esqueci aquele extremo literário do americano Bach e sempre que vejo alguém a carregar um saco de batatas ou a falar com uma linguagem muito técnica – daquela que nós, os economistas, tanto apreciamos – logo neles vejo os companheiros do pássaro-filósofo Fernão Capelo Gaivota.
Eu próprio tratei de arrebanhar partículas e insectos enquanto estive ao activo mas agora que estou aposentado posso deliciar-me com o prazer de voar.
Henrique Salles da Fonseca
(ao nascer do dia no Estreito de Magalhães)
