Portugal começou a ter a "noção de império" com o nosso monarca D. João II, quando adoptou a "Doutrina do Mare Clausum", isto é, ninguém podia navegar nos mares descobertos pelos portugueses, sem autorização do rei de Portugal, e a "Politica de Sigilo",em que ninguém podia divulgar os mares onde Portugal navegava nem dar a conhecer a cartografia portuguesa.
O próprio Tratado de Tordesilhas só foi possível alargar o espaço a nosso favor, contrariamente ao que pretendiam os Reis Católicos de Espanha, pelo conhecimento que possuímos das regiões onde as nossas naus sulcavam os mares.
Esta noção ou a "questão colonial" nunca esteve ausente das nossas revoluções e o titulo atribuído a D. Manuel I apenas consolida essa noção, alargando o titulo simples de D. Afonso III, Rei de Portugal e dos Algarves, até ao de Senhor do Comércio e da Navegação, da Guiné, da Arábia, da Pérsia e da Índia.
Vejamos as nossas revoluções principais e acontecimentos históricos sempre ligados ao problema colonial.
Comecemos por 1640 que levou à expulsão de Filipe III de Portugal e IV de Espanha. A governação filipina tinha abandonado a defesa das nossas colónias e uma parte do Brasil, de Angola e de S. Tomé já se encontravam na posse dos holandeses. Assim, fez-se a revolução não só para expulsar o Filipe, mas também para recuperar esses territórios. Os próprios " colonos brasileiros" libertam o Brasil e pagam as despesas da armada de Salvador Correia de Sá e Benevides que vai libertar Angola. Os holandeses abandonam S. Tomé, quando têm conhecimento da queda de Angola. Voltava, deste modo, à posse portuguesa o "Triângulo da Escravatura".
Vejamos a Revolução de 1820 dirigida pelo Juiz Desembargador do Tribunal da Relação do Porto, Manuel Fernandes Tomás, com o apoio da Loja Maçónica Sinédrio. A intenção da revolução não era apenas expulsar o inglês William Beresford, substituir a Monarquia Absoluta pela Monarquia Constitucional, mas havia igualmente subjacente uma "questão colonial".Estamos convencidos que já em 1817,com a tentativa do General Gomes Freire de Andrade, enforcado nos Campos Mártires da Pátria, havia as mesmas intenções. A Família Real abandonara Portugal, quando das Invasões Napoleónicas, a caminho do Brasil. A longa permanência neste território levou à elevação do Brasil à categoria de Reino. As transacções comerciais já se faziam directamente com a Europa sem passar por Portugal, o que prejudicou claramente os interesses burgueses do nosso país. A Família Real foi obrigada a regressar a Portugal e o Brasil voltou a ser colónia, sendo restabelecido o anterior circuito comercial. É verdade que foi de curta duração, pois o Grito do Ipiranga levou à Independência do Brasil em 1822 e ao seu reconhecimento em 1825.
Analisemos a implantação da República em 5 de Outubro de 1910.Ela resultou das dificuldades de governação da Monarquia Constitucional, mas igualmente derivou dum "problema colonial", relacionado com o Ultimatum Inglês de 1890 ou com a "Questão do Mapa Cor de Rosa".O território entre Angola e Moçambique era pertença de Portugal, onde tínhamos uma pequena presença militar. O território era conhecido pelo Chire, nome do rio, e que dava acesso ao Chinde. A Inglaterra pretendeu construir uma linha de caminho de ferro, desde o Cabo até ao Cairo, a qual atravessaria a região citada. Deu 48 horas ao nosso Rei D. Carlos para abandonarmos aquela região, pois ser-nos-ia declarada guerra, se o não fizéssemos. O monarca cedeu, mandando retirar a força militar. Os partidários da República aproveitaram a fraqueza do monarca e armaram a mão do Buiça, que assassinou o Rei e o filho mais velho Luis Filipe, ferindo também D. Manuel, no Terreiro do Paço, quando o monarca regressava duma caçada em Vila Viçosa. O novo Rei não resistiu à Revolta de 5 de Outubro de 1910,onde a Loja Maçónica Carbonária teve real influência.
Aproveitemos também o caso da Primeira Guerra Mundial relacionada com as colónias portuguesas. A Primeira República, durante o conflito, sempre defendeu os nossos territórios de África duma possível investida alemã. Por esse motivo, Afonso Costa foi à Conferência de Versailles, depois do final da guerra, exigir o pagamento de indemnizações de guerra à Alemanha, citando a nossa presença em La Lys e a defesa das colónias portuguesas. Na primeira República apenas um deputado fez uma proposta da venda de Angola, que foi rejeitada.
Passemos à Segunda Guerra Mundial. Salazar adoptou a "neutralidade colaborante" no conflito, que os portugueses aplaudiram e agradeceram.
Procurou, desta forma, em caso de vitória ou dos Aliados ou do Eixo poder preservar o "império colonial".Vislumbrando a vitória aliada, cedo influenciou favoravelmente os Aliados para a questão da preservação do império e a concessão da base dos Açores aos americanos insere-se na ideia da defesa e da preservação do império português.
As promessas dos aliados aos povos que ajudaram no conflito foram as independências das colónias. Chamaram a esse facto os "Ventos da História". O termo "colonização", de forte conotação cultural e civilizacional, foi substituído por "colonialismo",com implicações "imperialistas" de domínio e exploração. A colonização é posta em causa precisamente pelos países, de grande potência militar, nomeadamente a ex-URSS, os USA, a China e vários países europeus. Duma forma geral, todos possuíam colónias, a que chamavam zonas de influência estratégica. Sobressaíam a URSS com os países satélites sob o seu domínio e os USA também com "la main mise" sobre países tutelados politica e economicamente.
Fazem-se descolonizações apressadas, a chamada segunda vaga de descolonizações, depois de alguns conflitos com os descolonizados e a normalidade nunca mais voltou aos novos independentes, onde predominaram ditaduras cada vez mais sanguinárias.
Portugal recusou a independência das suas colónias ou das suas Províncias Ultramarinas ou Estados, dentro do princípio do seu "DESIGNIO NACIONAL" que já vinha desde D. João II.
O Estado da Índia é invadido pelas tropas do Pandit Nehru e Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar Aveli são ocupados pela força, apesar da heroicidade dum Aniceto do Rosário ou de termos ganho a questão da Índia no Tribunal da Haia. O direito da força sobrepôs-se à força do direito.
Em 4 de Fevereiro de 1961 e 15 de Março do mesmo ano, Angola sofre o ataque à esquadra da policia da Estrada de Catete por elementos afectos ao MPLA e ao ataque terrorista da UPA, mais tarde FNLA, no norte de Angola, onde foram chacinados barbaramente cerca de cinco mil portugueses, desde brancos, mulatos e negros, o que levou ao primeiro êxodo de Angola para Portugal. Seguiu-se depois Moçambique e Guiné-Bissau. Tudo isto aliado à "pirataria" do navio Santa Maria, com Henrique Galvão.
Salazar, dentro do princípio do "DESIGNIO NACIONAL" recusou ceder às pretensões do General Botelho Moniz, em 1961, para o demitir e entrar em negociações com os terroristas. Dá-se o ataque ao Quartel de Beja por elementos da oposição em nome da luta contra o fascismo. Juguladas as intentonas, Salazar assume o "rapidamente e em força para Angola".
Começa a Guerra Colonial ou do Ultramar.
Em Abril de 74 a revolução é anti-colonial e a guerra de 13 anos termina.
Adopta-se um processo de descolonização que configura traição à Pátria e aos povos descolonizados. Os seus autores chamaram-lhe "descolonização exemplar".Como não tivesse sido passaram a denominá-la como "descolonização possível" para finalmente ter sido uma "tragédia" como a definiu Melo Antunes, quase à hora da morte.
O processo de descolonização cingiu-se a passar o poder de Portugal para movimentos comunistas, como o PAIGC, o MDLSTP, o MPLA, a FRELIMO e a FRETILIN, desprezando-se outros movimentos como a UNITA e FNLA, a RENAMO ou a UDT e APODETI.
A guerra continuou em Angola, em Moçambique e em Timor e na Guiné têm-se sucedido golpes de estado.
Amputar o espaço geográfico e económico num ano criou a indigência de Portugal e situações ditatoriais nos descolonizados.
Terminou, da pior maneira, o DESIGNIO NACIONAL" e a guerra de 13 anos não estava de molde a fazer-se o entreguismo miserável que se praticou. Havia dificuldades ainda na Guiné, porque perdêramos o controlo do ar, mas em Angola a guerra estava ganha e Moçambique para lá se caminhava.
O DESIGNIO NACIONAL hoje é a UE. Enquanto foi fornecedora de dinheiro a UE foi o tesouro de Ali Babá. Hoje apenas restam os ladrões e os portugueses que aplaudiram o fim da Guerra do Ultramar atiram-se ferozmente a quem nos quer impor uma disciplina orçamental para evitar que continuemos a ser apenas dissipadores.
Mas quem é que quer fazer sacrifícios nos tempos que decorrem, quando habituaram os portugueses à riqueza virtual???
Isaías Afonso