Contrariando anteriores posições que defendi nesta página (só não muda de opinião quem não reconhece a evolução natural do status quo e os elementos novos de análise introduzidos recentemente no debate), creio que haverá um entendimento difícil, complexo, e em certos aspectos pouco linear, mas, sem embargo, de algum modo, consistente entre Atenas e Bruxelas. Sucede que a Grécia ao brandir a arma do “incumprimento” (default) assusta a Alemanha e coloca em risco toda a zona Euro, muito embora existam, hoje, diferentemente de 2011, todas as almofadas financeiras possíveis para enfrentar uma tal situação. A questão, porém, é política como se procurará demonstrar.
Atenas vai prometer vender algumas empresas públicas, encetará uma batalha contra a evasão fiscal, mais uma disseminação de impostos, aqui e além e a garantia de que irá cumprir fica atestada. Os credores podem considerar-se parcialmente satisfeitos – é um exercício do possível. Resta saber como Tsipras vai vender essas promessas em casa perante um eleitorado descontente e um partido no Poder que ameaça cindir-se. Com efeito, a resistência principal parece provir do próprio Syriza, uma vez que toda a campanha eleitoral se baseou no termo da austeridade, na renegociação da dívida e na manutenção da Grécia na Eurozona. Todos estes objectivos são, à partida, inexequíveis, porque contraditórios nos seus próprios termos e toda a gente tem plena consciência disso. Mas...aguardemos para ver.
Nesta matéria, as perguntas que se impõem são estas: Que estratégia vai ser adoptada por Alexis Tsipras, uma vez que à medida em que as negociações avançam o funil vai inevitavelmente apertar-se? Estaremos perante um hipotético referendo à presença da Grécia no Euro? Ou a eleições antecipadas, porque não existem condições para o Syriza se manter no poder, nem cumprir o seu programa? Estas questões são essencialmente intra-helénicas, com repercussões além fronteiras, bem entendido, mas são de pura gestão doméstica.
Estou em crer que o Syriza conta, no essencial, com a vontade da Alemanha em manter a Grécia na Eurozona. O Grexit (evicção da Grécia da moeda única) se, como dissemos, pode ser viável do ponto de vista financeiro, não o é do ponto de vista político. E o busílis da questão está precisamente aqui. A Alemanha, principal Estado da Eurozona e da UE não pode admitir a implosão do sistema que ela própria ajudou a criar em Maastricht. A saída de Estados da moeda única e, a prazo, da própria União, é uma questão politicamente impensável e redundaria, em última análise, no desprestígio total da própria Alemanha. Assim, Berlim necessita de um compromisso e Alexis Tsipras joga com isso. A jogada de póquer está aqui. Pode-se, pois, arriscar uma previsão: Atenas vai cumprir minimamente o programa de resgate, com este nome ou com outro qualquer, até Junho e veremos internamente como se vai comportar a ala mais à esquerda do Syriza. A contestação pode ser muito aguda e tal será visível principalmente na segunda metade do ano.
Dou a mão à palmatória. Estas análises terão de ser reformuladas em tempo, porque estamos num cenário de mutação permanente.
30 de Março de 2015
Francisco Henriques da Silva
