A bem da Nação

A FORTUNA DE GASPAR

 


É a propósito de um artigo


De um professor de Economia


Da Universidade de Colúmbia,


- Ricardo Reis de sua bizarria –


Saído no “A Bem da Nação”


Com muita precisão,


Sobre Victor Gaspar e a sua acção governativa


Como ministro das Finanças sem alternativa,


Na nação portuguesa endividada,


Que procurei em La Fontaine uma fábula


Justificadora do ponto de vista


Que o transforma de besta em bestial


Na opinião geral,


De gente muito assustada


Não fosse o FMI fazer-nos mal


E retirar-nos o capital,


Que uma política económica de dureza comprovada


Mas, ao que parece, única possível,


Tornou imprescindível.


Nós somos as moscas vaidosas e alardeantes,


Gaspar é a formiga trabalhadora e previdente


Que foi em frente


Abrindo os caminhos do bem-estar futuro


Mais modesto e seguro.



 


A Mosca e a Formiga”,


Fábula de La Fontaine colhida em Fedro


E outros seguidores:


 


A Mosca e a Formiga contestavam sobre o seu valor:


 “Ó Júpiter, disse a primeira,


Admite-se que o amor próprio cegue de tal maneira as cabeças,


Que um vil e rastejante animal


À deusa do ar ouse chamar-se igual?


Eu frequento palácios, sento-me às suas mesas:


Se te imolarem um boi


Antes de ti o saborearei,


Enquanto que esta enfezada e miserável


Três dias se alimenta


De um qualquer grãozito imprestável


Que arrastou para o seu buraquito.”


“Mas, minha doçura, diz-me:


Tu instalas-te sobre a cabeça dum Rei,


Dum Imperador ou duma Bela?”


“Com certeza, e beijo um belo seio sempre que quero:


Brinco no seu cabelo,


Realço a brancura natural de uma tez


Com uma “mosca” que reforça a palidez


De uma dama partindo à conquista,


Que não há quem lhe resista.


Depois venha romper-me a cabeça falando em celeiro!”


“Já disse tudo? Replicou-lhe a previdente.


Você frequenta os palácios; mas é aí muito mal vista,


E quanto a saborear primeiro


O que servem perante os Deuses,


Julga que isso valha mais por isso?


Se você entra em toda a parte, o mesmo fazem os profanos.


Sobre a cabeça dos Reis como sobre a dos Asnos


Você vai-se plantar; não vou discordar;


E também sei que duma pronta morte


Esse atrevimento é muitas vezes punido


Sem arrependimento.


Certo sinal, diz você, dá mais beleza.


Não discordo: ele é negro


Como você ou eu.


Admito que se chame Mosca


É razão para que você se ponha


A alardear o seu mérito sem vergonha?


Não se chamam também Moscas aos parasitas?


Tretas!


Deixe pois de manter tão vã linguagem:


Não tenha mais tão altos pensamentos.


As Moscas da corte, vulgo espiões,


São expulsas sem constrangimentos;


Os Moscardos, ou seja “bufos” – da guerra ou da polícia –


São enforcados com perícia,


E você de fome morrerá,


De frio, de inércia, de miséria,


Quando Febo reinar sobre o outro hemisfério.


Então, eu, do fruto do meu trabalho viverei,


Por montes e vales não irei


Expor-me ao vento, à chuva;


Sem melancolia viverei.


Os cuidados que antes tomei


De cuidados me libertarão.


A si lhe ensinarão


O que é uma falsa e uma verdadeira glória.


Adeus, perco o meu tempo: deixe-me trabalhar.


Nem o meu celeiro, nem o meu armário,


Se enchem a palrar. 


 


Também “A Cigarra e a Formiga”


Desenvolve este tema de gente inimiga.


A própria Condessa de Ségur criou uma história


À volta dum Gaspar estudioso


Duro e trabalhador


Que, por ter casado com Mina,


- Rapariguinha com muitos predicados,


Que só se apreciam na infância,


 E mesmo só na de antigamente,


Que agora já ninguém de igual modo a lê ou sente –


Se tornou mais esmoler,


Por amor,


Ele que era tão inteligente


Mas pouco generoso.


O nosso Gaspar também foi isso


- Trabalhador e inteligente


Mas a necessidade tornou-o duro a valer,


Sendo por isso odiado,


Sempre troçado,


Osso duro de roer


Besta na opinião geral.


Mas a Fortuna tornou-o bestial


Espécie de herói,


Assim que se despediu e que se viu


Quanto seria bem pior


Para a nação,


Se ele fosse diferente do que foi


No capítulo da sua acção.


 


 Berta Brás

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