A bem da Nação

A FOME

 


 


Esfomeado, um lobo, ao descobrir


Uma ovelha no campo estendida,


Com terror do lobo desfalecida,


Aproximou-se para a tranquilizar.


Bastava que ela apresentasse


Três razões verdadeiras


Para que ele a não comesse


Deixá-la-ia partir


Com boas maneiras,


Sem a molestar.


A ovelha, confiante,


E sem nenhum carinho,


Afirmou primeiramente


Que teria dispensado perfeitamente


Encontrar o lobo no seu caminho.


Em segundo lugar,


No caso de isso se verificar,


Alegria sentiria


Se o encontrasse ceguinho;


Em terceiro lugar, já enfastiada


Por ser obrigada a pensar,


Exclamou muito zangada:


- “Pudésseis vós rebentar,


Lobos abomináveis,


Que nos fazeis guerra tramada,


A nós, gente inocente,


Que contra vós não fizemos nada


De inconveniente!”


O Lobo admitiu nobremente


Que a ovelha não mentira


Na sua argumentação


Feita tão singelamente,


Com cabeça e coração,


E deixou-a, com honestidade,


Partir em liberdade.


A fábula mostra quanto a verdade


Até sobre o inimigo tem efeito.


 


Passaram muitos anos, todavia,


Desde que Esopo escreveu


Esta fábula tão velha


 


D’ “O Lobo e a Ovelha


 


Em que a verdade era garantia


Mesmo que não houvesse filantropia.


Hoje em dia,


Os lobos estão cada vez mais distantes


Da verdadeira cortesia


Cada vez mais uivantes


Como os da fábula aquiliniana,


Fazendo orelhas moucas



Às verdades das ovelhas


Cada vez mais loucas,


Servindo de pasto aos lobos,


Que vão impondo, esfolando sem perdão,


Enquanto elas vão balindo em vão.


 


 Berta Brás

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