A liberdade de expressão é um dos grandes valores da actualidade. Mas este enorme benefício, como todas as coisas preciosas, tem custos elevados. Poucos casos ilustram tão bem esta ambiguidade como a história recente da improvável fama de um economista francês.
Thomas Piketty, nascido em Clichy em 1971, é um excelente investigador, reconhecido há muito pelos seus estudos da evolução da distribuição de rendimentos. Tem mais de 20 anos de publicações marcantes, colaborando até com o maior autor da área, o britânico Sir Anthony B. Atkinson.
O seu trabalho tem duas particularidades interessantes. A primeira é que, em vez de se centrar no estudo da pobreza, como é habitual, Piketty analisa o extremo oposto, tratando a situação dos super-ricos. É mesmo co-fundador da World Top Incomes Database, um banco de dados que reúne os números disponíveis para quase todos os países do mundo ( http://topincomes.g-mond.parisschoolofeconomics.eu ).
O segundo aspecto constitui o método que lhe permite obter informação tão longa e vasta para problema tão complexo: o uso dos dados fiscais. A cobrança de impostos obriga há séculos todos os Estados a recolher valores detalhados sobre rendimento e património dos cidadãos. Com esses números pode traçar-se a trajectória a longo prazo da desigualdade em todo o mundo. A ideia é simples e eficaz, embora tenha também defeitos, que justificam a antiga relutância em usar estes meios. De facto a informação tributária sofre de enviesamentos óbvios, aliás patentes logo que os institutos de estatística conseguiram realizar inquéritos científicos, complementando e corrigindo as estimativas administrativas. Apesar disso, Piketty e colegas atreveram-se nesta abordagem, mostrando que as imperfeições são largamente compensadas pela vastidão de informação.
Esta literatura existe há muitos anos sem conseguir a atenção que merece. Até que o francês decidiu resumir os resultados num único volume. Deu-lhe um nome atrevido, com referência directa ao clássico de Karl Marx, e juntou-lhe uma boa dose de especulação e simplismo. Deve dizer-se que nem assim conseguiu o reconhecimento, quando Le Capital au XXIe Siècle chegou às livrarias em Agosto de 2013. Foi apenas na tradução americana, publicada em Março de 2014, que subitamente atingiu o estrelato. Com surpresa, o cientista adquiriu estatuto de astro mediático, enquanto se vendiam mais de milhão e meio de cópias do volume de 900 páginas. Os resultados desta notoriedade foram simultaneamente excelentes e lamentáveis.
