
Sobranceiro à baía e bem por baixo da minha varanda, localizava-se em Lourenço Marques o Miradouro dos Duques de Connaught donde se dizia que se dali olhássemos com muita força havíamos de ver Lisboa.
A nostalgia dos lugares distantes que levou os portugueses à aventura, à diáspora e à conquista de um Império, revelava-se ali no sentido inverso, no das origens, da tranquilidade, do regresso ao centro.
E donde vem esse "formigueiro" que nunca nos deixa parar?
Se o povoamento da Europa se fez a partir do Levante como rezam as crónicas, das hordas que chegaram da Ásia seguindo a rota do Sol foram-se uns quantos fixando no caminho e seguindo em frente os demais. Ficavam os que entendiam que para eles bastava de aventura; seguiam os que queriam mais ou que não se acomodavam às normas sedentárias entretanto estabelecidas. Sede de aventura e inconformismo dá uma mistura que não é compatível com a pacatez dos sossegados. E se isto foi acontecendo ao longo dos milhares de léguas que distam da foz do Danúbio ao Cabo da Roca, fácil será compreender o grau de apuramento a que a dita mistura levou os que alcançaram o extremo ocidental e se debruçaram das arribas sobre o mar. Talvez seja esta a explicação para o queixume do General romano que dizia que cá nos confins da Ibéria havia um povo que não se governava nem se deixava governar . . .
Aqui chegados, eis o limite inultrapassável. E como já não havia fuga possível, começaram os problemas de meter num pequeno espaço tanto fervilhar de vontades.
Alcandorados entretanto uns quantos à tarefa do mando, cumpre a cada um garantir a sobrevivência do seu próprio feudo daí resultando na época medieval uma nobreza turbulenta mas entretida com a reconquista cristã. Quando em 1249 cai o último reduto árabe do Algarve, Silves, Portugal assume o actual território continental e ficam os irrequietos nobres portugueses sem mais com que se entreter do que com quezílias intestinas. Se a esta inquietude somarmos um clero de duvidosa formação doutrinária e moralmente desleixado, não encontramos motivos para deixar de compreender que tanto os camponeses como os pescadores fossem laboriosos à custa do embrutecimento a que foram remetidos por quem assim os queria para não levantarem ainda mais problemas do que os que já existiam. Como muito mais tarde viria a dizer Eça de Queiroz, a esta mole ignara somava-se uma população urbana de artesãos e servos que constituía uma «plebe beata, suja e feroz». E esta população urbana abandonara os campos em fuga da miséria ou a caminho do anonimato na escuridão de becos e azinhagas já que dois terços do solo português não têm qualquer vocação agrícola por serem esqueléticos, rochosos ou escarpados. E se a esta realidade somarmos um tenebroso regime pluviométrico de seca e enxurrada, bem se compreende que a escassa população medieval do Reino – um milhão, no máximo – era excessiva para a exploração das riquezas naturais do território.
Com permanente borbulhar de mentes inquietas em cenário de miséria interna e acossado pelo vizinho que não lhe perdoa a autonomia, Portugal só tem uma hipótese de sobrevivência: a conquista de além-mar.
Assim chegámos ao século XV; eis-nos de novo em tal situação neste início do XXI.
Afinal, também hoje temos na diáspora o preço a pagar pelo Centro.
Lisboa, Maio de 2007
Henrique Salles da Fonseca
BIBLIOGRAFIA:
"A orla ocidental da Cristandade" – Boxer, Charles R. – Edições 70, Lisboa