No antigo regime quase tudo constituía segredo.
Se havia um incêndio que provocasse um número elevado de mortes não era dada a noticia para não perturbar o sentimento das pessoas.
Se acontecesse uma inundação por excesso de precipitação ou devido ao aumento do caudal dum rio e que desse origem a devastações, a noticia a transmitir à população era reservada e sem pormenores para não causar constrangimentos emocionais.
Um atentado a um político, um movimento grevista, uma manifestação de rua, uma perseguição policial a amigos do alheio, uma opinião contra o Governo, eram objecto de censura para não alarmar o povo.
O antigo regime protegia a tranquilidade dos habitantes e protegia-se a si próprio, não fosse a opinião pública tornar-se uma realidade e exigisse a transparência dos seus actos.
O sossego imposto era encarado como um atentado à liberdade, sempre apregoado pelos arautos da Democracia.
Implantada a Democracia, passou a usar-se a denúncia e a inveja com toda a "transparência".
Hoje, tudo se denuncia.
A denúncia era um dos elementos característicos dos regimes comunistas como o foi nos regimes fascistas em que nenhum cidadão estaria ao abrigo desse acto cobarde.
Contudo, a denúncia também hoje faz parte dos regimes democráticos como o português.
O meu vizinho tem um chorudo salário, contrário ao regime de crise e austeridade em que o país está mergulhado. Deve ser denunciado à opinião pública.
O gestor dum banco intervencionado tem um salário escandaloso contrário ao discurso do PM que afirmou que tínhamos de empobrecer. Deve ser denunciado.
O deputado fugiu ao fisco, enviando capitais para "offshores". Deve ser denunciado.
Aquela empresa teve lucros fabulosos tendo dividendos extraordinários para os seus accionistas. Deve ser denunciada porque é imoral tão avultada distribuição de lucros num momento de tamanha crise. Deve ser denunciado.
E o que dizer daquele patrão que adquiriu um carro de grande cilindrada não se sabendo se foi com manigância ou por qualquer outra razão escondida. Deve ser denunciado.
Porém, no tempo em que não tínhamos esta actual taxa fiscal, no tempo em que não se verificava diminuição da massa salarial, no tempo em que não era preciso descontar taxas de solidariedade, no tempo em que se recebia 13°e 14° meses, no tempo em que tínhamos acesso a crédito e que até nos pediam para contrairmos empréstimos, no tempo em que passávamos férias no estrangeiro, que comprávamos casa, que a mobilávamos com todo o conforto e com toda a aparelhagem sofisticada de som e imagem, no tempo do bem-estar virtual, não era preciso praticar a denúncia nem tão pouco ter inveja dos luxos dos vizinhos. Ninguém pensava na denúncia.
Hoje a transparência dos actos exige a denúncia.
Toda a comunicação social se regala com o processo das denúncias.
A denúncia, com todos os adornos da democracia, faz vender e obter lucros.
Nos regimes comunistas eram heróis do regime os meninos que denunciavam os pais com ideias contra o Partido ou contra o Estado.
Nos regimes democráticos a denúncia deve ser praticada com transparência para não se assemelhar à denúncia comunista.
Com crises não há acto que não seja objecto de denúncia.
O curioso é que A DENÚNCIA É DERIVADA DA INVEJA.
20 de Maio de 2013
Isaías Afonso