O romance "Nos Bosques" saiu nos anos de 1868-74. O seu autor, P.I. Melhnikov, tendo-o escrito sob o pseudónimo Petcherskii, foi professor de história em Nijnii-Novgorod. Ele investigou durante muitos anos a vida e os costumes dos rasskólniki* (dissidentes) de além-Volga. No seu romance ele apresenta lendas locais, entre as quais "A lenda da cidade de Kítej".
* Rasskolniki, Dissidentes ou Velhos Crentes eram todos aqueles que não aceitaram as reformas religiosas de 1660, impostas pelo patriarca Nikon, que foi chamado "iconoclasta". Uma dessas reformas era como fazer o sinal da cruz: com dois dedos ou com três (!)
Nas regiões do Alto Volga, fixara-se em tempos remotos a Russ' em bosques e terrenos pantanosos. Gente de Novgórod, nos tempos recuados de Riurik aí se estabelecera. As lendas da destruição feita pelo khan Batyi ainda aí estão frescas. Mostram ainda a "vereda de Batyi" e o lugar da cidade invisível Kítej no lago "Svetlyi Yar" (Brilhante Margem). Toda essa cidade até agora se mantém com as muralhas de pedra branca, com as igrejas de cúpolas doiradas, com os veneráveis mosteiros, com as torres trabalhadas, com os palácios de cantaria dos nobres. Toda a cidade, mas invisível. Não se vêem as almas penadas da famosa Kítej. Esta se escondeu maravilhosamente, por ordem de Deus, quando o ímpio czar Batyi, tendo destruído a Russ' de Suzdal, foi combater a Rúss' de Kítej. Aproximou-se o czar tártaro da grande cidade de Kítej, e mandou incendiar as casas, espancar os homens ou metê-los em cárceres, e das mulheres e raparigas fazer concubinas. Não permitiu, porém, o Senhor que o paganismo muçulmano vencesse o santo cristianismo. Dez dias e dez noites a multidão de Batyi procurou a cidade de Kítej e não a pôde encontrar, cega com estava. E até hoje a cidade aí está --- abre-se, apenas, perante um suposto tribunal de amedrontados cristãos. E no lago Svetlyi Yar, em tarde de verão, vêem-se reflectidas das águas as muralhas, as igrejas, os mosteiros, as torres, as mansões fidalgas, os palácios dos burgueses endinheirados. E ouvem-se de noite o plangente e surdo toque dos campanários de Kítej.
Mélhnikov-Petcherskii (В лесах)
Joaquim Reis