Um dos grandes problemas no mundo em que vivemos é que o Norte, em geral, assume uma atitude de superioridade, de sobranceria e de desprezo em relação ao Sul (refiro-me, principalmente, à Europa, bem entendido, mas não só).
As excepções confirmam invariavelmente a regra. Os protestantes puritanos (calvinistas ou luteranos), sérios, disciplinados, trabalhadores do Norte consideram-se sempre superiores às preguiçosas, indisciplinadas, hedonistas e intrinsecamente desonestas gentes do Sul. Estes clichés ou estereótipos, porque é disso mesmo que se trata, não ajudam nada neste mundo globalizado em que vivemos e destroem toda e qualquer noção por ténue que seja de uma pretensa Europa unida e solidária e, principalmente, com uma causa comum a ser defendida por todos.
Os desentendimentos entre os seres humanos que dão origem aos grandes conflitos têm a sua origem em problemas tal como os descritos, que são primários, mas reais. De facto, as gentes do Norte não têm espelhos para se observarem com atenção e desde sempre foram – e são – incapazes de qualquer "mea culpa" ou de uma simples atitude de aproximação e de concórdia. Pairam por cima de tudo isso. A razão está sempre do seu lado, iluminados que estão por Deus e pelo espírito do neoliberalismo irrestrito e omnipresente.
Um dia as coisas vão acabar mal, muito mal, mesmo, como já ocorreu no passado e os exemplos podem multiplicar-se.
É preciso relevar que a civilização nunca nasceu a Norte, mas sim na bacia do Mediterrâneo e nos grandes rios do Médio Oriente e da Ásia. Todos sabemos disso. Vem nos livros de História. Quando nos apresentam o Norte como uma escola de virtudes e o Sul como um inferno de vícios, o que para além de ser uma inverdade, acicata ódios ancestrais e irracionais que existem, que não se dissipam com o tempo e muito menos com atitudes destas.
Um exemplo entre muitos: a Dinamarca passa por ser o país mais feliz do mundo, como se a felicidade fosse mensurável numa escala qualquer como a temperatura em graus Celsius, a velocidade em quilómetros horários ou os terramotos na escala de Richter. Depois os nossos amigos dinamarqueses matam girafas para as criancinhas verem ou golfinhos em rios de sangue nas ilhas Faroe. Neste último caso, às críticas argumentam que o arquipélago é uma região autónoma com Governo próprio, mas será que vamos permitir que Açores, Madeira, Canárias, Baleares, Sardenha e Sicília também regiões autónomas, façam o que lhes der na real gana e ainda lhes sobre tempo?
Esses dois factos (matar girafas e matar baleias) também entram na medida da felicidade? Vi crianças africanas com fome felizes com toscos brinquedos de lata improvisados e com um sorriso nos lábios em aldeias paupérrimas. O que é a felicidade? É só a do Norte? Com cerveja e aquavit?
Quo vadis Europa?
(Embaixador)
