A bem da Nação

A AMBIGUIDADE NA ETERNIDADE

 


 


A duplicidade é uma característica


Tão usual no homem


Que, sem perceber de Estatística,


O próprio Esopo,


Do mundo observador,


Com ela enfeitou


Uma hiena e a pintou


Transportando, traidora,


Ora um sexo ora outro,


Segundo lhe apetecesse,


Ou no bestunto lhe desse,


Para melhor conviver


A enganar, a torpedear,


A limpar velhas carcaças


Dos animais mortos na selva


E em seguida gargalhar


No banquete do seu apetite,


Mesmo sem doces passas,


A festejar:


«A hiena e a raposa»


«Diz-se que as hienas,


Cuja natureza


Todos os anos muda,


Num hibridismo de fraca beleza,


Ora são machos ora são fêmeas.


Uma Hiena, encantada


À vista duma formosa Raposa,


Censurava-a por não ceder


Às suas tentativas para a seduzir,


Quando ela, Hiena, só desejava


Ser sua amiga dilecta.


“Não me censures tu a mim,


- A Raposa lhe respondeu,


Que não era nada pateta -


Mas sim,


À tua natureza dúbia


Que não me permite esclarecer


Se minha amiga ou meu amigo


Quererás ser!”


É a pessoa ambígua


Que a fábula pretende atingir.»


Ora aqui está como se pode tão bem descrever


Uma sociedade de grande capacidade


Para a ambiguidade,


Sem citar nomes próprios,


Coisa que é mais da Justiça,


Ou dos Jornais, recolher!


Bem se diz, para resumir,


E isto sem contradições,


Que quem vê caras não vê corações.


Mas por isso mesmo vivemos


Numa época de muitas discussões,


As mais das vezes sem apelações.


Porque na pátria amada


A ambiguidade é protegida


Sobretudo se bem engravatada.


Seria já assim também


No tempo de Esopo,


Um homem tão de lá d’além,


De tempos tão recuados


Quando ainda não se haviam


Formado antepassados?


Mas estou em erro: Porque afinal


As sereias do Ulisses


Também estavam prontas


Para causar-lhe mal!


E a serpente bíblica


Fez-nos sair do Éden


Para o desterro terreal!


A ambiguidade, é verdade,


Nasceu


Sob a capa da suavidade


E nunca morreu.


 


 Berta Brás

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