A bem da Nação

A ALEGRIA DE DAR

 


A tradição é de que somos um povo acolhedor, que senta à sua mesa quem lhe bate à porta e lhe dá pão e vinho, ou a bucha para o caminho. Foi, pelo menos, o que escreveu Reinaldo Ferreira, e que Artur Fonseca musicou, em Moçambique e alguém cantou no Rádio Clube, julgo que eu estava lá, era no meu tempo do liceu. Mas foi Amália Rodrigues que, com a sua voz intraduzível, a tornou passaporte da nossa projecção no mundo, nessa época de Salazar, de frugalidade e modéstia, que hoje todos consideram bafienta, porque repressiva de certas liberdades e redutora de bem-estar - embora não generalizada esta última faceta, como é natural, contida, embora, apologeticamente na canção. Vejamos a letra tão simpática e escutemo-la com unção na voz divina:


 


 


Amália-UMA CASA PORTUGUESA.jpg


 https://www.youtube.com/watch?v=RU-Z0SiQKgU


 


Casa Portuguesa


 


Numa casa portuguesa fica bem,


pão e vinho sobre a mesa.


e se à porta humildemente bate alguém,


senta-se à mesa co'a gente.


Fica bem esta franqueza, fica bem,


que o povo nunca desmente.


A alegria da pobreza


está nesta grande riqueza


de dar, e ficar contente.


Quatro paredes caiadas,


um cheirinho a alecrim,


um cacho de uvas doiradas,


duas rosas num jardim,


um São José de azulejos,


mais o sol da primavera,


uma promessa de beijos,


dois braços à minha espera.


É uma casa portuguesa, com certeza!


É, com certeza, uma casa portuguesa!


No conforto pobrezinho do meu lar,


há fartura de carinho.


e a cortina da janela é o luar,


mais o sol que bate nela...


Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar


uma existência singela...


É só amor, pão e vinho


e um caldo verde, verdinho


a fumegar na tigela.


Quatro paredes caiadas, (bis)


É uma casa portuguesa, com certeza!


É, com certeza, uma casa portuguesa!


 


Foi por isso que Jardim mandou semear várias casas na Madeira e em Porto Santo, mesmo sem registo de propriedade, para mostrar ao mundo o quão acolhedores somos. Em princípio, parece que as casas serviam para acolher caminhantes e pastores, mas afinal foi Jardim e os seus membros do Governo, que se aproveitaram delas, todas com lindas vistas, como mostram as fotos, do Público de 30/8 e alguns dizeres de ocupação dos tempos: “Jardim costumava passear pela praia no Porto Santo, acompanhado por jornalistas e amigos, comentando a actualidade”, além de outros registos de fotografias de casas com campos de ténis e jardins para as férias de membros do governo, etc, etc, que o novo chefe do Governo Regional se propõe cancelar: «Albuquerque acaba com “absurdo” das casas de férias de Jardim» lê-se em título.


 


Mas o facto de serem casas de férias, em nada isso as incompatibiliza com o sentido da canção, que nos define como povo generoso, antes pelo contrário, excluído o “humildemente”, que esse é que é profundamente incompatível com os traços caracterológicos de Jardim. Também julgo que as suas recepções ultrapassavam, em vitualhas, o pão e vinho da generosidade pelintra das quatro paredes caiadas. Afinal Jardim era contra a austeridade que Passos implantou no país e saiu-se bem, nos seus passeios discutindo altissonantemente, como é seu hábito, essas políticas, que não quadravam à sua generosidade, por conta alheia que fosse.


 


Berta Brás 2.jpg Berta Brás

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